6 de nov. de 2013


O Natal Venezuelano

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, decretou o dia 1 de novembro como a antecipação da comemoração do Natal, com a finalidade de produzir a “felicidade para todo o povo”. Visitou a Feira Natalina Socialista 2013, organizada em Caracas, cantou músicas natalinas tradicionais do país e interagiu com os presentes.

Recentemente ele também criou o Vice-Ministério para a Suprema Felicidade Social do Povo, muito criticado inclusive internamente com zombarias e críticas em sua nação e além dela. São atos bem diferentes para um governante, somente para não dizer que beira à infantilidade e a falta de coerência mental.

É fato conhecido por estudiosos do assunto que o Natal não era comemorado pelos cristãos primitivos e somente no final do século IV, temos informações que o nascimento de Cristo era comemorado nas igrejas em geral, mas com diferenças gritantes de datas, pois não era algo significativo e de grande impacto para eles.

As datas variavam entre 2 de janeiro, 18 de abril, 19 de abril, 20 de maio e 25 de dezembro. Por fim, 25 de dezembro se tornou a data oficialmente reconhecida para o Natal. Sabemos que isso era a alternativa da Igreja para contrapor às festividades pagãs, porque a data coincidia com a Saturnália e o solstício de inverno, onde o deus-sol (Sol Invictus) era adorado.

A data tornou-se oficial após um decreto do Papa Júlio I (300-352), de quem não se sabe quase nada, como é costumeiro das informações dos primeiros séculos dada pelo Catolicismo, em 350 d.C., que determinou a substituição da veneração ao deus sol pela comemoração da data do nascimento de Jesus, o Salvador.

Independente da problemática teológica e histórica sobre o Natal e do calendário que usamos na maioria do mundo atual, fazer atos por decretos presidenciais em que se alteram coisas seculares é ir um pouco além de governar um país e um povo. Um ato como esse, com as desculpas da “felicidade para o povo” e de cunho “socialista”, creio eu, não passou nem pela cabeça de Hugo Chávez.
Se a moda pega...

© Carlos Carvalho

Referências;

Maduro decreta Natal antecipado na Venezuela.  Disponível em: http://oglobo.globo.com/mundo/maduro-decreta-natal-antecipado-na-venezuela-10678222
Catholic Encyclopedia (1913) / Pope St. Julius I. Disponível em:
 http://en.wikisource.org/wiki/Catholic_Encyclopedia_(1913)/Pope_St._Julius_I
Natal. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. Vol.III, N-Z. São Paulo: Vida Nova, 1990. p.9.


28 de out. de 2013


Estado & Liberdade – às vezes são incompatíveis!

Tenho diante de meus olhos a famosa Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, promulgada pela França, que em ato, dizia que “a ignorância, o esquecimento e o desprezo aos direitos do homem, são as únicas causas das desgraças públicas e da corrupção dos Governos”. Naquela época, a Assembleia francesa proclamava essas palavras que ultrapassaram os séculos: “na presença e sob os auspícios do Ser Supremo”, e hoje, 224 anos depois, a França manifesta a Carta de Laicidade, que são 15 “mandamentos” que devem ser o lastro da educação em suas escolas públicas, retirando delas a “presença” do Ser Supremo.

Em matéria da Carta Capital, n.767, de 25 de setembro deste ano[1], quem a escreveu declara que na contramão de países “contaminados, em sua vida política e social, por uma visível atmosfera carola, quase teocrática”, a França mais uma vez surpreende gerando essa Carta de Laicidade, que segundo o mesmo escritor, “faz jus à tradição de liberdade e igualdade”. A tentativa francesa é de mais uma vez, separar claramente o Estado da religião, proclamando sua laicidade. Isso é louvável em certos aspectos, desde que no afã de se fazer isso, não violente a própria liberdade defendida.

Claro que a Carta de Laicidade difere da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, porque uma é nacional, promulgada como base fundamental de um Estado independente e a outra se destina a fins mais restritos do ambiente escolar público, todavia é preciso pensar um pouco mais sobre o assunto, porque com a boa intenção de construir um caminho de igualdade entre os homens, iniciando infância e na escola, pode-se estar cerceando na escola e na infância (ambientes naturais da formação do próprio homem), seus direitos mais básicos de expressão de sua identidade que claramente não é formada na escola. Pensemos em alguns pontos.

Primeiro – a Carta diz que a França é uma república democrática e social que respeita todas as crenças – se isso fosse verdadeiro, de início não seria necessário que essa Carta fosse promulgada, pois ela vai diretamente contra e exatamente na direção das crenças religiosas e, portanto, nega a Democracia (como fim último ela deveria prover as condições para o pleno e livre desenvolvimento das capacidades humanas essenciais de todos os membros da sociedade[2]) e nega o fato social, pois vê o Estado somente como uma máquina que representa uma nação de direito, mas esquece-se que o Estado é composto por todos os cidadãos que nele estão e participam, pois “todo o poder emana do povo”[3].

Segundo – é correto que a Carta faça menção da separação entre Estado e religião, pois o Estado não advoga religião pessoal, ao menos em tese não deveria, mas isso não significa que as pessoas que dão existência ao Estado (sem pessoas não há Estado) não possuam crença religiosa. É incoerente que um Estado que não tenha crença religiosa, diga a seu povo (que lhe dá origem e legitimidade) que esse Estado (gerido por pessoas, porque as leis não têm vida própria, precisam de intérpretes e executores), dite as regras da própria manifestação pessoal das crenças. Isso não é liberdade, nem tampouco igualdade, é uma tremenda imposição à moda de governos monárquicos medievais e tirânicos.

Terceiro – a Carta menciona que qualquer um é livre para crer ou não crer. Isso é maravilhoso, pois a liberdade de consciência, o respeito a todas as crenças e a liberdade de expressão dos alunos está garantida, em tese, pois o mesmo texto veta aos alunos “livres” a “invocação de uma convicção religiosa para contestar uma questão do programa”, “não quebrar as regras da escola invocando filiação religiosa”, proibindo “portar signos ou objetos com os quais os alunos manifestem ostensivamente suas filiações religiosas” e obrigando os professores a transmitir aos alunos o “sentido e os valores do laicismo”, sendo “estritamente neutros”. Alguém realmente considera que isso é liberdade, igualdade e Democracia?

Quarto – um Estado que pensa que, pelo fato de ser parcialmente responsável pela educação de seu povo e não percebe que a educação se estende para além das escolas públicas, está equivocado em seus conceitos. A educação não se dá somente nas escolas públicas, mas também nas privadas, nas escolas confessionais, na casa, na família, na tradição religiosa na qual o aluno nasceu, na instituição religiosa ou culto do qual participa, nas redes sociais, na televisão, no ambiente de trabalho, portanto, fora do ambiente formal da escola numa porcentagem maior do que neste. Educação é também definida como “uma busca permanente de si mesmo” e que o homem “é o sujeito de sua própria educação. Não pode ser o objeto dela. Por isso ninguém o educa”, mas ela é feita na “comunhão com outras consciências”, como Paulo Freire afirma[4]. Por isso a Carta também nega a essência da Educação.

Quinto – em último lugar, é óbvio que não sou francês, não moro no país e não vivo a extensão da problemática ateísta, secular e religiosa que caracteriza essa nação e, portanto, não poderia opinar sobre os temas com 100% de precisão, mas como observador externo e também vivendo num país como o nosso, envolto com problemas parecidos, embora diferentes na expressão cotidiana, posso tecer comentários. Uma Democracia que não respeita a pluralidade de seus cidadãos, mas impõe regras a essa pluralidade com a desculpa de ordem social, mais parece com outra coisa, e não uma Democracia. Um Estado que recebeu do povo o seu poder e legitimidade, porém atenta contra os direitos básicos de seus cidadãos legítimos, não é um Estado pleno, mas uma sombra de Estado. Um governo que pensa que a educação de seus cidadãos passa por ele, sem a intervenção da consciência de outros, da família, da vida em sociedade e de todos os demais ambientes que formam o indivíduo, é autoritário em desmedida.

Portanto, a Carta de Laicidade não me parece um avanço na tradição de liberdade e igualdade francesa, mas um retrocesso, dada a dimensão da pluralidade das crenças religiosas, da quantidade dos ambientes formadores da educação do homem e da extensão da vida social que cada nação possui em si mesma.

© Carlos Carvalho





[1] p.80
[2] Noberto Bobbio – Dicionário de Política, p. 329
[3] Parágrafo único, art. 1º da Constituição da República Federativa do Brasil
[4] Educação e Mudança. Paulo Freire. Paz e Terra. 12ª. edição. Biblioteca Central da UFPB.

16 de out. de 2013


HISTÓRIA RECENTE DA AMÉRICA LATINA – AUTORITARISMO E RETORNO À DEMOCRACIA - CHILE

De fato a América Latina tem experimentado grandes mudanças, ora algumas que parecem distorcer o espírito da democracia, como alguns “aparentes desmandos” que rondam o governo argentino na atualidade, ora mudanças que alteram definitivamente o cenário dos países, como quando da libertação das tiranias nas décadas passadas.

Não é diferente no Chile, país que Faz fronteira ao norte com o Peru, a nordeste com a Bolívia, a leste com a Argentina e um dos dois únicos países da América do Sul que não tem uma fronteira comum com o Brasil. Atualmente, o Chile é um dos países mais estáveis e prósperos da América do Sul. Dentro do contexto maior da América Latina, é o melhor em termos de desenvolvimento humano, competitividade, qualidade de vida, estabilidade política, globalização, liberdade econômica, baixa percepção de corrupção e índices comparativamente baixos de pobreza. Também é elevado o nível regional de liberdade de imprensa e de desenvolvimento democrático[1].

Em sua recente história, seu longo período democrático (de 1932-1973)[2] foi brutalmente cortado no golpe de estado de 1973, do general Augusto Pinochet, que derrubou o então presidente eleito democraticamente Salvador Allende, que se suicidou ao final do golpe no Palácio da Moneda, sede do governo chileno. A ditadura no Chile durou 17 anos e findou-se em 1990 após o plebiscito nacional de 88 no qual o povo decidiu por novas eleições e pelo fim do regime ditatorial.

No decurso deste regime, mais de 3.000 pessoas foram executadas e mais de 30.000 foram torturadas na sangrenta troca do poder que se deu em solo chileno. Mesmo com o processo de redemocratização iniciado, o Chile ainda sofria com uma democracia protegida com a Constituição de 1980 que dava proteção aos militares e indulgência de não serem julgados ou punidos pelos atos da ditadura. Mas nos últimos anos, os tribunais do Chile não aplicaram a lei de anistia.

Em 1991, o Informe da Comissão Nacional de Verdade e Conciliação (Comissão Rettig) documentou 2.296 casos de pessoas que haviam sido vítimas de homicídio político, dos quais quase mil eram casos de desaparecimento forçado. Em 2004 e 2005, o informe da Comissão Nacional sobre Prisão Política e Tortura (Comissão Valech) apurou que 28.459 pessoas haviam sido detidas por motivos políticos e que a maioria delas havia sido torturada. A Comissão foi reaberta em 2010 para avaliar mais casos de desaparecimento forçado, homicídio político, encarceramento por motivos políticos e tortura[3].

Os avanços do país nas últimas décadas também mostram suas insuficiências e contradições. O movimento estudantil pôs o dedo na ferida aberta por expectativas que o progresso chileno criou, mas não se mostrou capaz até aqui de atender. O ponto politicamente mais sensível está num sistema de educação superior que obriga os alunos a assumir dívidas para financiar seus estudos, mas não os capacita para obter empregos com salários que permitam pagar o empréstimo contraído[4].

Assim vemos o Chile, mas certamente seu povo o vê de maneira diferente. Um país que lutou bravamente e mesmo contra as leis impostas pela ditadura após a ditadura em sua Constituição, que disse “Não” ao regime militar assassino de seus cidadãos, que disse “Sim” à Democracia, mesmo em meio a dor e ao sofrimento, um povo que espera que a justiça seja feita aos criminosos de seu anterior regime, mas que ainda luta pelos Direitos Humanos das famílias vitimadas e por uma educação de qualidade e gratuita a todos, não uma educação “vendida” pelas privatizações de seu sistema educacional.

© Carlos Carvalho





[1] Dado de: http://pt.wikipedia.org/wiki/Chile
[4] http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,chile-entre-o--passado-e-o-futuro-,1082866,0.htm

30 de set. de 2013

Roubos & Lucros

Estava comprando a revista Carta Capital em uma banca de jornal do centro de minha cidade atual e, enquanto me dirigia para fazer o pagamento, passava em uma TV no local, um assalto quase que cinematográfico a dois carros-fortes que havia acontecido na Rodovia Anhanguera há alguns meses atrás.

Não sabia do que se tratava a reportagem no momento, mas impressionou a todos s que estavam na banca a ousadia e as cenas de explosões e tiros. Ao final, a voz do repórter dizia que os bandidos tinham conseguido fugir com cerca de 7 milhões de reais dos carros-fortes.

Ao falar com a jovem que me atendeu, como qualquer brasileiro, comentamos o ocorrido, e ela considerou que achava “legal” o fato dos criminosos terem fugido sem serem pegos, que assim estava bom, pelo menos. Disse-lhe que ela não fazia ideia do que estava falando, pois no final, todos nós pagamos por tudo isso.

Acredito que ela tenha considerado “legal” o fato da fuga dos bandidos, por se tratar de dinheiro dos bancos e não o dela. Isso é comum na maioria das pessoas sem informação. Elas acham que esse tipo de ação nada tem a ver com elas, e, contanto que não sejam elas as roubadas, não há problemas.

Desconhecem o fato que o sistema bancário tem seguro contra esse tipo de situação, e o pior, mal sabem que nós todos, os que temos uma conta bancária, iremos depois pagar por todo esse “prejuízo” com as taxas inúmeras, os valores sobre os serviços, os contratos que lesam o cidadão, com as altas taxas de juros cobradas de todos os correntistas.

Ela, e parece que a maioria dos brasileiros não sabe, que não vemos nenhuma notícia de nenhum banco reclamando dos assaltos, dos furtos, das explosões dos caixas eletrônicos e jamais se perguntaram o porquê disso. Os bancos de fato não tomam nenhum prejuízo real com nada do que acontece com o dinheiro e o povo não sabe por quê.

Será possível que não sabem que esse dinheiro é nosso, de todos os que possuem conta e poupança nos bancos e eles apenas o usam para emprestar a juros altos a outras pessoas e ganhar mais dinheiro? Portanto, nenhum banco está de fato, em última instância, preocupado com o destino do dinheiro que é roubado. Eles o terão de volta cobrando de nós.

Em 2012, o lucro real dos bancos no Brasil ultrapassou a casa dos 45 bilhões de reais, mesmo que tenha sido um pouco inferior ao dos anos anteriores. Esse lucro diminuiu em 2012, após 16 anos de lucratividade positiva. É uma festa para os acionistas e seus donos. O lucro é o resultado esperado de qualquer negócio, mas o tipo de lucratividade que têm os bancos no Brasil é um assalto ao bolso dos brasileiros e isso com a permissão de nossos governantes.

Mais tarde um pouco, em uma borracharia da cidade, me inteirei de que aquela notícia que vi pela manhã era uma reprise das cenas veiculadas meses atrás e estava passando porque os assaltantes daquele caso haviam sido presos pela polícia. Confesso que gostaria de ter voltado à banca e perguntado à jovem o que ela diria sobre isso.

© Carlos Carvalho

Fontes:

Lucro de grandes bancos privados recua em 2012. Disponível em: http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=116192


Lucro consolidado de BB, Bradesco e Itaú tem 1ª queda em 16 anos. Em: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/1240356-queda-na-lucratividade-de-bancos-em-2012-foi-a-primeira-em-15-anos-diz-consultoria.shtml

27 de set. de 2013


Seminário Internacional de Educação em Guarulhos

27 de setembro de 2013

  
Nesta manhã, nas apresentações dos dados e números do universo da TIC (Tecnologia da Informação e Comunicação) nas escolas, feitas pelos representantes do Peru, da Argentina, de São Bernardo do Campo e do MEC, fiquei impressionado com a dimensão e o tamanho do trabalho que têm sido realizados nas escolas públicas e com o que ainda precisa ser feito.

Muitas vezes, ao criticar os órgãos governamentais e a qualidade do ensino público, passa-se desapercebidos os desafios, os problemas e as circunstâncias do universo envolvido de uma nação e o quanto é laborioso o trabalho de educar. Educar ou fazer uma educação de qualidade e gratuita é um esforço colossal.

É preciso, claro, melhorar e criar processos contínuos de melhoramento do sistema, da qualidade do ensino, dos conteúdos e do aperfeiçoamento continuado dos professores/educadores, mas não se deve esquecer o longo processo e a longa jornada até aqui e tudo quanto já foi realizado e está sendo feito.

Sou grato pela escola pública, sou fruto dela e com maravilhosas lembranças. Grato aos meus queridos professores de meu primeiro e segundo graus (como se chamava em minha época). Grato aos meus alfabetizadores, incluindo minha tia Luci, professora municipal. Quem de nós, não gostaria que o mesmo espírito escolar de nossa geração fosse visto ainda hoje, guardadas as devidas proporções?

De minha parte, comprometo-me a lutar e trabalhar por uma educação plena que crie uma real e verdadeira transformação na sociedade, começando na transformação interior de cada brasileiro.


Carlos Carvalho

13 de set. de 2013


Abutres do Novo Mundo

Em minha caminhada matinal hoje vi um número expressivo de Abutres do Novo Mundo (mais conhecidos por nós como urubus) sobrevoando um espaço próximo e, logo ao sentir o cheiro de putrefação, percebi que se tratava de um cadáver de algum animal. Minha mente levou-me ao tempo em que vivia no Nordeste e como essa cena era comum em minha adolescência.
Os abutres são atraídos pela carne em estado de decomposição (são necrófagos) e os poderosos sucos gástricos em seu estômago fazem uma perfeita digestão sem adoecê-los ou matá-los. O próprio Jesus mencionou em um de seus discursos que o hábito desses animais tem relação direta com o ser humano e suas ações. Ele disse:

“Pois onde estiver o cadáver, aí se ajuntarão as águias (ou abutres)”. (Mateus 24.28)

Com essa imagem em mente, fui deslocado para a chuva torrencial de notícias semanais sobre a corrupção nos mais variados níveis da vida diária em nosso país. Claro, já estamos quase esgotados com tantas formas que as pessoas corrompidas, ética e moralmente, encontram para burlar as leis, enganar sistemas e desviar quantias vultosas de dinheiro.

Estouram denúncias e mais denúncias, CPI’s são abertas, julgamentos são realizados, pessoas (algumas) são condenadas e presas, “caixas-pretas” são reveladas, pessoas são ameaçadas e até mortas pelo esquema corruptor, e continuamente esse “aguaceiro” maldito não cessa de jorrar sua podridão. Descobrimos que a corrupção brasileira é endêmica, ou seja, está ligada a nós como a nossa pele e pode atingir a todos como “Cosa mostra”.

Nesse instante percebi a realidade da coisa. Os abutres ou urubus só rodeiam certos locais porque o cadáver está ali. Se não houvesse carne em putrefação, eles sobrevoariam outros locais em busca de seu alimento. Os urubus se alimentam deste tipo de material e não podem ser julgados por sua natureza, pois isso é de seu instinto animal. Mas o que dizer dos homens? Em nossa sociedade e em muitos dos seus lugares de poder e governo se instalaram abutres-humanos.

Entendi que toda essa corrupção e desmandos, toda essa podridão e DNA malditos só atraem abutres-humanos para perto de si. Óbvio que todos temos nossos erros e falhas e estamos sujeitos a quedas, mas o que estou falando não é deste nível de falha humana que pode ser resolvida com arrependimento e retorno à sensatez, estou falando dessa condição latente em certos ambientes que não apenas facilita, mas altera o caráter e a moral de todos ao seu redor.

É como um vírus sem cura que está escondido nas células do corpo e em certas condições e ambientes físicos favoráveis se manifesta trazendo destruição certa não havendo nada que possa ser feito e, qualquer que seja a intervenção cirúrgica ou medicamentosa, apenas retardará a morte por um pouco mais de tempo, todavia com grande sofrimento. Da mesma maneira, esses urubus-homens, corroem e consomem a tudo o que tocam.

Os locais de corrupção nunca poderiam ser habitados por pessoas de ética, caráter e moral, pois elas não resistiriam ao “mau cheiro” que eles exalam. Mas para os abutres-humanos, esses locais são um “paraíso alimentar”, pois são sua fonte de prazer e satisfação. A corrupção atrai os urubus-homens porque é “carne em putrefação” e estes só podem viver perto dessa “iguaria”.

Então, minha mente voou para um ponto mais distante. Como evitar que essa “carne putrefata” esteja disponível a esses abutres-humanos? A morte é certa para todos os animais e seres humanos, portanto, não podemos evitar a morte que causa a decomposição, mas podemos evitar que o cadáver seja exposto. Quando o dono de um animal morto faz sua parte, ou seja, enterra seu animal, os urubus não aparecem.

Em nossa sociedade e locais de poder/governo, algumas coisas vão “morrer”, tornarem-se obsoletas e necessitar de novas tecnologias para evitar as fraudes, mas isso deve ser feito com extrema rapidez para que os urubus-homens não se utilizem dessas “brechas” para sangrarem nossos recursos que nos são tão caros. Precisamos ser habilidosos para não permitirmos que nossos “cadáveres” estejam expostos atraindo esses animais-homens.

Voltei meus pensamentos à minha esposa que caminhava comigo e pensei que deveria me expressar sobre esse assunto.

Carlos Carvalho
Setembro de 2013