31 de dez. de 2013


As Previsões Astrológicas que não aparecem nos “signos” dos crédulos

Além de ser fato (nem é preciso dizer cientificamente comprovado) que os astros não governam as nossas vidas e que as chamadas previsões astrológicas não passam de conselhos superficiais com a finalidade de ludibriar e entorpecer as mentes de quem almeja direção para si, há aquilo sobre o qual essas mesmas previsões não possuem controle ou não podem mencionar, pois se assim o fizessem, deixariam de ser rentáveis aos seus “profissionais”: a verdade concreta da vida humana.

Fiz um pequeno teste em um dos muitos sites sobre o tema. Li todas as previsões de todos os signos dos últimos dias e dos próximos até o final do ano (2013), e qual o resultado? As previsões são as mesmas para os signos, invertendo as palavras em certos dias e alterando outras por palavras sinônimas. Todos os signos têm basicamente os mesmos conselhos superficiais, as pessoas não notam isso porque leem somente o correspondente ao seu signo.

Paralelamente a isso não há sequer qualquer menção aos graves problemas da vida e tampouco nenhum deles se arrisca a predizer fracassos, derrotas ou realidades avassaladores sobre a vida de ninguém, como a possível morte por um diagnóstico de câncer ou uma doença terminal. Quero relatar algumas coisas das quais o “horóscopo” das pessoas nada dizem ou avisam para que essas mesmas pessoas guiadas por esses “astros” pudessem alterar sua vida ou preservá-las de algo realmente ruim ou catastrófico.

Os tais astros não avisam quando um casamento vai terminar por causa de violência, de ódio, de abusos ou por traições que o outro possa cometer, ao contrário, sucessivas vezes esses astros dizem que “um antigo amor” está de volta, sem se preocupar com as consequências que algo assim pode gerar numa relação. Não podem dizer se a pessoa que diz nos amar vai realmente estar ao nosso lado por toda a vida.

Os astros não avisam quando uma pessoa vai morrer de bala perdida, de acidente automobilístico, em uma viagem de férias ou de negócios, de acidente aéreo, por ser vítima de latrocínio (roubo seguido de morte), por estar em um lugar errado como na beira de uma praia de férias na manhã de um tsunami, se vai morrer por afogamento, por deslize de terra após chuvas torrenciais, nem sequer por usar drogas, beber ou fumar demais.

Os astros não sabem dizer se a pessoa vai perder os pais, o emprego, nem quando haverá colapso no sistema financeiro global, a quebra de seu banco onde estão depositadas todas as suas economias, se a pessoa concluirá seus estudos, sua faculdade, se encontrará o emprego sonhado, se abrirá sua almejada empresa e se esta continuará existindo por mais de 5 anos, se de fato a pessoa alcançará os seus sonhos na vida ou se seu casamento vai durar por mais alguns anos.

Tenha mais um parágrafo de paciência. Os astros não podem dizer se você terá Alzheimer, de terá câncer de mama ou de próstata, se algum de seus filhos nascerá com leucemia, se contrairá qualquer dos vírus mortais que existem, não podem lhe dizer se a pessoa com quem você teve relação na noite anterior não lhe infectou com AIDS ou outra DST, se quem disse que você é sua vida, não lhe preparou veneno no almoço ou se você e sua esposa dormindo serão assassinados por sua filha e de seu namorado.

Se eles soubessem de tudo isso nós seríamos as pessoas mais felizes do universo, pois desfrutaríamos de um sistema preventivo maravilhoso que apenas não poderia impedir o dia concreto de nossa morte, mas todas as outras coisas que nos perturbam a vida seriam eliminadas uma após outra ao passar do tempo. Isso sim é digno de um tipo de organismo que pode realmente controlar ou guiar seguramente as nossas vidas. Mas o fato é que a vida não é assim e não é controlada ou influenciada pelos astros.

Viver é mais do que aquilo que os “astros” podem nos oferecer. Viver é uma experiência que está além de falsas influências e de conselhos generalizados. Viver é mais complexo do que a simplicidade das palavras vazias e frágeis que a astrologia tem para nos dizer. A vida é mais séria, mais concreta, mais dura e pode ser mais feliz do que as fracas esperanças astrológicas diárias nos indicam. Portanto, os “astros” segundo a astrologia não servem para serem os guias de nossa existência e para nos aconselhar sobre a vida.

Cansaste-te na multidão das tuas consultas; levantem-se pois agora os que dissecam os céus, os que contemplavam os astros, os que em cada lua nova predizem e salvem-te do que há de vir sobre ti.
Eis que serão como a pragana, o fogo os queimará; não poderão salvar a sua vida do poder das chamas; não haverá brasas, para se aquentar, nem fogo para se assentar junto dele.
Assim serão para contigo aqueles com quem trabalhaste, os teus negociantes desde a tua mocidade; cada qual irá vagueando pelo seu caminho; ninguém te salvará.
Isaías 47.13-15


Carlos Carvalho
24 de dezembro de 2013


21 de dez. de 2013


RESUMO DE UM GOVERNO ATEU

Josef Stalin (1879-1953), ditador soviético, foi filho de um sapateiro e de uma lavadeira, perdeu o pai e irmãos bem cedo, foi criado pela mãe. Seus primeiros anos de estudos se deram na escola religiosa russo-ortodoxa de sua cidade natal, foi enviado para o seminário na capital georgiana, Tbilisi (ou Tiflis). Revoltou-se contra a disciplina do local e influenciado pela leitura de romancistas realistas russos e de Darwin, acabou expulso do seminário, no último ano de estudos, 1899.

Stalin não era seu sobrenome, foi adotado por ele em 1913 e significa “homem de aço”, foi assim que ficou conhecido na posteridade. Político duro e sem escrúpulos, Stalin usou seu poder para destruir todos os que surgiram em seu caminho, teve enorme participação e importância na consolidação do regime soviético e na ascensão da URSS como potência mundial. Nos anos 1920, assume o poder da nação, prioriza a industrialização e passa a "edificar o socialismo", transferindo para o Estado o controle de toda a atividade econômica.

Em seu governo recheado de abusos, a nação que mais sofreu com isso foi a Ucrânia. Nos anos da década de 1930, Stalin executou o mais cruel plano de genocídio da história contemporânea. O país foi isolado pelas tropas soviéticas, mais de 5.000 intelectuais foram deportados e mortos em campos de concentração, a população foi privada de todos os meios de sobrevivência, com o confisco do gado e da produção do trigo. Qualquer que fosse descoberto com trigo estocado era fuzilado. 25.000 ucranianos morriam de fome por dia.

Em apenas dois anos, Stalin ordenou à morte cerca de 10 milhões de pessoas na Ucrânia. Isso foi escondido do mundo por décadas, mas com o fim da tirania soviética, a verdade veio à tona. Em novembro de 2006 o Parlamento da Ucrânia aprovou a lei que reconheceu oficialmente o genocídio premeditado de Stalin e tornou ilegal negar a sua existência. Essas são lições que jamais devemos esquecer. Este é um pequeno capítulo de um governo ateu entre tantos outros na História.

Carlos Carvalho

Fontes:
Ditador soviético Josef Stalin. Em: www.educacao.uol.com.br/biografias/josef-stalin.jhtm
Entre dois Gigantes. Revista Veja, edição 2352 – ano 46 – n.51. 18 de dezembro de 2013. p. 106-107.


26 de nov. de 2013


A Imagem no Mundo Pós-Moderno

A palavra “imagem” sugere uma representação visual ou mental. Pode referir-se ao objeto que é visto ou à representação mental dele que o observador mostra em sua mente. O conceito é tão complexo, que no mundo grego as palavras são muitas e se misturam entre si a ponto de se coincidirem. As principais são:

charater = “imagem”, “marca” ou “impressão”, usadas para imprimir uma estampa. idea = “aparência”, usada em Platão para as entidades por trás das formas em nosso mundo material. eikon = “réplica”, “semelhança”, e “imagem”. eidolon = “imagem”, “esboço”, usada para a forma que não tem substância e não possui o mesmo grau de realidade de eikon, também para os ídolos religiosos. typos = “impressão visível”, “cópia”, “forma”, “figura”. Além de outras[1].

Usada no marketing como sua principal arma de sucesso, a palavra pode ser atualmente definida como: representações, impressões, convicções e redes de significados de um objeto (produto/marca, corporação, loja) armazenado na memória de forma holística[2]. Isto significa que a imagem é a mais poderosa ferramenta para o trabalho desses profissionais com o objetivo de fazer uma empresa, marca ou pessoa alcançarem êxito em seus negócios e promoção de sua imagem pessoal.

Sociologicamente a imagem pode ser conduzida com fins a uma ideologia. Ideologia é, na definição de alguns sociólogos, um instrumento de dominação, ou seja, um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações (ideias e valores) e de normas ou regras (de conduta) que indicam e prescrevem aos membros da sociedade o que devem pensar e como devem pensar, o que devem valorizar e como devem valorizar, o que devem sentir e como devem sentir, o que devem fazer e como devem fazer[3].

Para aqueles que nasceram nas décadas anteriores aos anos 80, facilmente perceberão que a introdução maciça da imagem em todas as áreas da vida humana e social é um fato inquestionável. Não que a imagem antes disso não tivesse seu lugar, mas que por causa do advento do cinema, desde sua primeira projeção pública no século XIX[4] e da televisão a partir de 1920[5] e posteriormente com todos os seus aprimoramentos até se tornar um aparelho viável e comercializável a todos, a imagem veio tomando espaços cada vez maiores no mundo.

É claro a real mudança comportamental que a sociedade passa ao longo dos séculos, mas no que diz respeito à imagem, é algo impressionante. Anteriormente, a população, principalmente as pessoas alfabetizadas, dava importância à leitura e a escrita, mas nesta época é evidente que, pelo surgimento e crescimento das redes sociais, a imagem tomou uma proporção global e estabeleceu-se como principal veiculador de ideias, de desejos e de comunicação entre as pessoas, principalmente os mais jovens.

A quantidade de imagens artificiais, fotos de locais frequentados e turísticos, de pessoas, de animais de estimação, da exposição da intimidade, de frases relacionadas a alguma imagem é mais comum na internet do que a produção de textos de conteúdo. É perceptível que a comunicação é feita por símbolos (que são imagens como os smiles emoticons), por formas gráficas (como os acentos ortográficos), imagens e desenhos (como animes) e uma multidão de pequenos vídeos de todos os tipos de temas.

A imagem tornou-se um deus moderno com capacidade de fazer as pessoas decidirem o que vestir, o que comprar, com quem se parecer, que veículo possuir, onde morar, para onde ir em viagens com a família, que empresa é a melhor, quais os melhores produtos, qual TV, computador ou celular comprar, o que se deve comer, o que se deve ler, com quem se casar, quantos filhos deve ter e muito mais. Praticamente tudo em nosso modelo de vida social e capitalista está representado por uma imagem ideal, senão tudo.

© Carlos Carvalho
22 de novembro de 2013





[1] Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. Colin Brown, Lothar Coenen. 2.ed. – São Paulo: Vida Nova, 2000. Vol. I – A-M.

[2] Gestão da imagem: desenvolvendo um instrumento para a configuração da imagem de produto. Revista da Administração Contemporânea. vol.11 no.4 Curitiba Oct./Dec. 2007. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1415-65552007000400007&script=sci_arttext&tlng=es.

[3]Chauí, Marilena. O que é ideologia. PDF digitalizado em 2004. p.43.

[4] A História do Cinema. Os imãos Auguste e Louis Lumiére fizeram a apresentação de sua invenção, o cinematógrafo, que podia projetar as imagens ao público. O nome do aparelho passou a identificar a nova arte. Disponível em: http://www.webcine.com.br/historia1.htm

[5]A invenção da televisão. Disponível em: http://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/a-invencao-da-televisao.htm 

20 de nov. de 2013


DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Este dia é celebrado desde 1960, mas foi instituído por lei em 10 de novembro de 2011 por Decreto de Lei n.12.519, pela Presidenta Dilma Roussef. Ele marca a lembrança da morte de Zumbi, em 1615, e assinala um dia de reflexão acerca da inserção do negro na sociedade brasileira. Da mesma forma, remete à memória da resistência à escravidão do negro desde que chegou ao Brasil.

Importante ressaltar que a reflexão sobre o negro e a sociedade brasileira tem se dado num contexto bem plural. Há uma tentativa de se refazer os passos e a história até as raízes e matrizes africanas e ao mesmo tempo manter uma forma de religiosidade que não faz parte do cotidiano da maioria dos negros no Brasil hoje, nem tampouco dos africanos atuais.

Paralelamente, há uma tentativa ingênua de se criar em cada local de tradição religiosa “africana”, uma espécie de embaixada de outra nação, onde não se pode inferir nem legislar acerca de suas ações ou conteúdos. Ao se tentar tocar nos assuntos, logo se levantam acusações de preconceito, racismo e intolerância, da mesma maneira como ocorre com certas minorias militantes no país.

Outro dado a prestar atenção é que no último Censo (2010)[1], menos da metade da população brasileira se declarava branca (91 milhões) e os que se declaravam pardos (mestiços), negros, amarelas e indígenas, chegavam quase a 100 milhões de pessoas. Isso é ímpar, pois o nosso país não é de maioria branca. O mesmo estudo afirma que somente 15 milhões se declaravam negros, portanto, também, uma minoria.

Na questão religiosa, o mesmo Censo demonstra que entre os declarados negros (15 milhões), apenas 21% disseram ser de religião afro-brasileira, isso significa que no total geral dos habitantes (levando em consideração somente os dados oficiais), 0,3% da população brasileira participa dessas manifestações religiosas. Levando-nos a inferir que nem os próprios negros no Brasil aderem às religiões das suas matrizes originais.

Não há uma religião natural no Brasil, todas são importadas, da mesma forma que não existe uma cultura nacional, pois todas as que possuímos também são importadas. A cultura indígena talvez seja a única que se caracteriza como natural, mas mesmo esta não se solidificou, obviamente por uma série de acontecimentos que lhe tolheu a própria existência, restando pouco em nossos dias a se preservar.

Portanto, de acordo com os dados da evolução populacional e a manifestação religiosa em nosso país, é certo concluir que em termos de religião ou cultura, tudo é mutável ou “migrável”, pois há uma enorme massa humana que vai se movendo entre as religiões com o passar do tempo. Religião e cultura no Brasil não é coisa de família e ancestralidade, mas de escolha pessoal. Isso deve ser respeitado e não se deve tentar impor modelos, mesmo sob la força da Lei.

Não devemos diferenciar negativamente as pessoas por causa da cor da sua pele ou de sua classe social. As diferenças sempre existirão entre as pessoas, mas é necessário que a regra áurea da humanidade seja o princípio norteador dos relacionamentos sociais. Tiago deixou escrito:

Se vós, contudo, cumprirdes a lei régia segundo a Escritura: Amarás o teu próximo como a ti mesmo, sem dúvida fazeis bem.
Mas se vos deixais levar por distinção de pessoas, cometeis pecado, sendo condenados pela lei como transgressores.
Tiago 2:8-9

© Carlos Carvalho
Teólogo e graduando em Ciências Sociais.
Fundador e Presidente da ONG ABAN-Brasil


Imagem: Pintura do artista alemão Johann Moritz Rugendas de negros jogando capoeira no Brasil. Disponível na internet.




[1]Censo Demográfico 2010: Características gerais da população, religião e pessoas com deficiência. http://loja.ibge.gov.br/censo-demografico-2010-caracteristicas-gerais-da-populac-o-religi-o-e-pessoas-com-deficiencia.html

12 de nov. de 2013

Anotações sobre “Modernidade Reflexiva

                  Não apenas as ideias de Giddens[1] nos mostram um mundo em convulsão, mas todos os autores dessa linha de pensamento asseveram o mesmo: que ao final da modernidade, é comum fazer reflexões sobre o final dela. Todas as sensações emocionais descritas como: desesperança, confusão, incertezas e desilusões de um mundo melhor prometido que não aconteceu, envolvem a mente de todos.
      
            A ciência e a tecnologia desenvolveram, alcançaram patamares surpreendentes, todavia a prosperidade social não aconteceu e o ser humano na busca de sua felicidade, pelas promessas dos avanços científicos, ainda não logrou êxito em achar o “caminho da felicidade”.  Agora este homem desconstrói diariamente seu mundo e seus conceitos, na tentativa de encontrar significado após não tê-lo reconhecido no próprio mundo.

                  Vitima de suas contradições, o ser humano transita entre dois mundos: o moderno que se vai e o pós-moderno que ele não sabe se está. Se a pós-modernidade é o novo, o homem se debate e se revolve entre os lençóis do velho mundo moderno, procurando vestes de cama nova, onde possa se deitar. Nisto, encontramos a máxima antiga: “remendo velho em pano novo”, onde a presença de uma coisa nova, que não se sabe bem o que é, faz frente e resistência ao antigo.

                  “Admirável mundo novo”, sempre velho, presente, confuso e indesejável. Como diria o comediante mexicano no papel de “Chapolin Colorado”[2]: “Quem poderá nos ajudar?”.       

Carlos Carvalho
Walckiria Alexandre
Ricardo Carriço




[1] Anthony Giddens é sociólogo britânico, (1938-). Reflexões a partir do artigo de Maria da Silva: As Inquietações da Modernidade.  Pode ser encontrado disponível em: http://www2.ifrn.edu.br/ojs/index.php/HOLOS/article/viewFile/37/40

[2] El Chapulín Colorado (intitulado Chapolin no Brasil) é uma série de televisão mexicana do gênero comédia. Criado e interpretado pelo ator e escritor Roberto Gómez Bolaños nos anos 70.

6 de nov. de 2013


O Natal Venezuelano

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, decretou o dia 1 de novembro como a antecipação da comemoração do Natal, com a finalidade de produzir a “felicidade para todo o povo”. Visitou a Feira Natalina Socialista 2013, organizada em Caracas, cantou músicas natalinas tradicionais do país e interagiu com os presentes.

Recentemente ele também criou o Vice-Ministério para a Suprema Felicidade Social do Povo, muito criticado inclusive internamente com zombarias e críticas em sua nação e além dela. São atos bem diferentes para um governante, somente para não dizer que beira à infantilidade e a falta de coerência mental.

É fato conhecido por estudiosos do assunto que o Natal não era comemorado pelos cristãos primitivos e somente no final do século IV, temos informações que o nascimento de Cristo era comemorado nas igrejas em geral, mas com diferenças gritantes de datas, pois não era algo significativo e de grande impacto para eles.

As datas variavam entre 2 de janeiro, 18 de abril, 19 de abril, 20 de maio e 25 de dezembro. Por fim, 25 de dezembro se tornou a data oficialmente reconhecida para o Natal. Sabemos que isso era a alternativa da Igreja para contrapor às festividades pagãs, porque a data coincidia com a Saturnália e o solstício de inverno, onde o deus-sol (Sol Invictus) era adorado.

A data tornou-se oficial após um decreto do Papa Júlio I (300-352), de quem não se sabe quase nada, como é costumeiro das informações dos primeiros séculos dada pelo Catolicismo, em 350 d.C., que determinou a substituição da veneração ao deus sol pela comemoração da data do nascimento de Jesus, o Salvador.

Independente da problemática teológica e histórica sobre o Natal e do calendário que usamos na maioria do mundo atual, fazer atos por decretos presidenciais em que se alteram coisas seculares é ir um pouco além de governar um país e um povo. Um ato como esse, com as desculpas da “felicidade para o povo” e de cunho “socialista”, creio eu, não passou nem pela cabeça de Hugo Chávez.
Se a moda pega...

© Carlos Carvalho

Referências;

Maduro decreta Natal antecipado na Venezuela.  Disponível em: http://oglobo.globo.com/mundo/maduro-decreta-natal-antecipado-na-venezuela-10678222
Catholic Encyclopedia (1913) / Pope St. Julius I. Disponível em:
 http://en.wikisource.org/wiki/Catholic_Encyclopedia_(1913)/Pope_St._Julius_I
Natal. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. Vol.III, N-Z. São Paulo: Vida Nova, 1990. p.9.


28 de out. de 2013


Estado & Liberdade – às vezes são incompatíveis!

Tenho diante de meus olhos a famosa Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, promulgada pela França, que em ato, dizia que “a ignorância, o esquecimento e o desprezo aos direitos do homem, são as únicas causas das desgraças públicas e da corrupção dos Governos”. Naquela época, a Assembleia francesa proclamava essas palavras que ultrapassaram os séculos: “na presença e sob os auspícios do Ser Supremo”, e hoje, 224 anos depois, a França manifesta a Carta de Laicidade, que são 15 “mandamentos” que devem ser o lastro da educação em suas escolas públicas, retirando delas a “presença” do Ser Supremo.

Em matéria da Carta Capital, n.767, de 25 de setembro deste ano[1], quem a escreveu declara que na contramão de países “contaminados, em sua vida política e social, por uma visível atmosfera carola, quase teocrática”, a França mais uma vez surpreende gerando essa Carta de Laicidade, que segundo o mesmo escritor, “faz jus à tradição de liberdade e igualdade”. A tentativa francesa é de mais uma vez, separar claramente o Estado da religião, proclamando sua laicidade. Isso é louvável em certos aspectos, desde que no afã de se fazer isso, não violente a própria liberdade defendida.

Claro que a Carta de Laicidade difere da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, porque uma é nacional, promulgada como base fundamental de um Estado independente e a outra se destina a fins mais restritos do ambiente escolar público, todavia é preciso pensar um pouco mais sobre o assunto, porque com a boa intenção de construir um caminho de igualdade entre os homens, iniciando infância e na escola, pode-se estar cerceando na escola e na infância (ambientes naturais da formação do próprio homem), seus direitos mais básicos de expressão de sua identidade que claramente não é formada na escola. Pensemos em alguns pontos.

Primeiro – a Carta diz que a França é uma república democrática e social que respeita todas as crenças – se isso fosse verdadeiro, de início não seria necessário que essa Carta fosse promulgada, pois ela vai diretamente contra e exatamente na direção das crenças religiosas e, portanto, nega a Democracia (como fim último ela deveria prover as condições para o pleno e livre desenvolvimento das capacidades humanas essenciais de todos os membros da sociedade[2]) e nega o fato social, pois vê o Estado somente como uma máquina que representa uma nação de direito, mas esquece-se que o Estado é composto por todos os cidadãos que nele estão e participam, pois “todo o poder emana do povo”[3].

Segundo – é correto que a Carta faça menção da separação entre Estado e religião, pois o Estado não advoga religião pessoal, ao menos em tese não deveria, mas isso não significa que as pessoas que dão existência ao Estado (sem pessoas não há Estado) não possuam crença religiosa. É incoerente que um Estado que não tenha crença religiosa, diga a seu povo (que lhe dá origem e legitimidade) que esse Estado (gerido por pessoas, porque as leis não têm vida própria, precisam de intérpretes e executores), dite as regras da própria manifestação pessoal das crenças. Isso não é liberdade, nem tampouco igualdade, é uma tremenda imposição à moda de governos monárquicos medievais e tirânicos.

Terceiro – a Carta menciona que qualquer um é livre para crer ou não crer. Isso é maravilhoso, pois a liberdade de consciência, o respeito a todas as crenças e a liberdade de expressão dos alunos está garantida, em tese, pois o mesmo texto veta aos alunos “livres” a “invocação de uma convicção religiosa para contestar uma questão do programa”, “não quebrar as regras da escola invocando filiação religiosa”, proibindo “portar signos ou objetos com os quais os alunos manifestem ostensivamente suas filiações religiosas” e obrigando os professores a transmitir aos alunos o “sentido e os valores do laicismo”, sendo “estritamente neutros”. Alguém realmente considera que isso é liberdade, igualdade e Democracia?

Quarto – um Estado que pensa que, pelo fato de ser parcialmente responsável pela educação de seu povo e não percebe que a educação se estende para além das escolas públicas, está equivocado em seus conceitos. A educação não se dá somente nas escolas públicas, mas também nas privadas, nas escolas confessionais, na casa, na família, na tradição religiosa na qual o aluno nasceu, na instituição religiosa ou culto do qual participa, nas redes sociais, na televisão, no ambiente de trabalho, portanto, fora do ambiente formal da escola numa porcentagem maior do que neste. Educação é também definida como “uma busca permanente de si mesmo” e que o homem “é o sujeito de sua própria educação. Não pode ser o objeto dela. Por isso ninguém o educa”, mas ela é feita na “comunhão com outras consciências”, como Paulo Freire afirma[4]. Por isso a Carta também nega a essência da Educação.

Quinto – em último lugar, é óbvio que não sou francês, não moro no país e não vivo a extensão da problemática ateísta, secular e religiosa que caracteriza essa nação e, portanto, não poderia opinar sobre os temas com 100% de precisão, mas como observador externo e também vivendo num país como o nosso, envolto com problemas parecidos, embora diferentes na expressão cotidiana, posso tecer comentários. Uma Democracia que não respeita a pluralidade de seus cidadãos, mas impõe regras a essa pluralidade com a desculpa de ordem social, mais parece com outra coisa, e não uma Democracia. Um Estado que recebeu do povo o seu poder e legitimidade, porém atenta contra os direitos básicos de seus cidadãos legítimos, não é um Estado pleno, mas uma sombra de Estado. Um governo que pensa que a educação de seus cidadãos passa por ele, sem a intervenção da consciência de outros, da família, da vida em sociedade e de todos os demais ambientes que formam o indivíduo, é autoritário em desmedida.

Portanto, a Carta de Laicidade não me parece um avanço na tradição de liberdade e igualdade francesa, mas um retrocesso, dada a dimensão da pluralidade das crenças religiosas, da quantidade dos ambientes formadores da educação do homem e da extensão da vida social que cada nação possui em si mesma.

© Carlos Carvalho





[1] p.80
[2] Noberto Bobbio – Dicionário de Política, p. 329
[3] Parágrafo único, art. 1º da Constituição da República Federativa do Brasil
[4] Educação e Mudança. Paulo Freire. Paz e Terra. 12ª. edição. Biblioteca Central da UFPB.