6 de jun. de 2014


AÇÕES QUE MERECEM SER COPIADAS

No final do ano de 2012 líamos esta notícia:

Presos que lerem e entenderem obra de Dostoiévski terão pena reduzida

A Vara Criminal de Joaçaba, sob comando do juiz Márcio Umberto Bragaglia, deu a largada ao projeto Reeducação do Imaginário, que consiste na distribuição de obras clássicas aos apenados da comarca, para leitura e posterior cobrança de pontos em entrevistas com o magistrado e seus assessores. Os participantes que demonstrarem melhor compreensão do conteúdo, respeitada a capacidade intelectual de cada apenado, poderão ser beneficiados com a remição de quatro dias de suas respectivas penas.

O primeiro módulo do projeto consiste na leitura da obra Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski. No segundo módulo, para o qual já existe etapa de aquisição de livros, os apenados lerão O Coração das Trevas, de Joseph Konrad. Depois virão obras de William Shakespeare, Charles Dickens, Walter Scott, Camilo Castelo Branco e outros autores, todos recomendados por intelectuais do calibre de Otto Maria Carpeaux, Olavo de Carvalho, Harold Bloom e Mortimer J. Adler. Os livros serão adquiridos em edições de bolso, diretamente com verbas de transação penal destinadas ao Conselho da Comunidade, que juntamente com o Presídio Regional de Joaçaba participa do projeto encabeçado pela Vara Criminal.

O projeto (...) visa a reeducação do imaginário dos apenados pela leitura de obras que apresentam experiências humanas sobre a responsabilidade pessoal, a percepção da imortalidade da alma, a superação das situações difíceis pela busca de um sentido na vida, os valores morais e religiosos tradicionais e a redenção pelo arrependimento sincero e pela melhora progressiva da personalidade, o que a educação pela leitura dos clássicos fomenta, interpreta o juiz Bragaglia, declaradamente inspirado nas lições de educação do filósofo Olavo de Carvalho, a quem considera o maior pensador brasileiro vivo e em atividade.

Naquela manhã, reunidos no Salão do Júri, os apenados participantes do projeto todos voluntários - ouviram palestra do juiz Bragaglia: “Não vou subestimar a capacidade de vocês, não vou sugerir que leiam best-sellers, autoajuda, subliteratura ou outras inutilidades. Ao contrário! Todo ser humano, por mais difícil que seja sua situação ou por mais precária que tenha sido sua educação, tem condições de ler grandes obras com proveito, e é isto que torna essas obras eternas: o quanto elas falam da experiência concreta, da alma humana”, comentou o magistrado. Ao final, cada participante recebeu uma edição de Crime e Castigo, acompanhada de um dicionário de bolso. O projeto conta com o apoio e a participação do Ministério Público de Santa Catarina, por meio do promotor de justiça criminal de Joaçaba, Protásio Campos Neto.

Em fevereiro de 2013 foram realizadas as primeiras entrevistas de avaliação dos presos participantes do primeiro módulo do “Projeto Reeducação do Imaginário”, e atualmente mais de 60 presos participam voluntariamente do projeto, entre homens e mulheres. É prematuro para afirmar se os objetivos de formação e aprimoramento do caráter, bem como ampliação do horizonte de consciência moral dos detentos foram ou serão atingidos, mas esperamos que ações educacionais e de reeducação dos apenados visando sua reinserção na sociedade sejam cada vez mais amplas.

Carlos Carvalho
Junho de 2014

Referências:
JusBrasil
Disponível em: http://tj-sc.jusbrasil.com.br/noticias/100201916/presos-que-lerem-e-entenderem-obra-de-dostoievski-terao-pena-reduzida. Acessado em 04/06/2014.
Mídia sem Máscara

Disponível em: http://www.midiasemmascara.org/artigos/cultura/13954-reeducacao-do-imaginario-primeiras-impressoes-e-resultados.html

4 de jun. de 2014


Crack – a droga da vez

É propagado quase que diariamente nas principais cidades e veículos de comunicação do Brasil que o crack representa o atual desafio para a sociedade e governos no quesito da dependência química nos dias de hoje. Esta droga, que é subproduto da cocaína, figura como um dos principais inimigos de nossa saúde pública. Apesar de todos os exageros anunciados, não se pode negligenciar o resultado destrutivo de qualquer substância química viciante, principalmente o do crack.

Ele apareceu no Brasil por volta de 1990 e, desde lá, seu consumo não parou de crescer. As estimativas mais conservadoras dizem que a população de consumidores desta droga, só no estado de São Paulo pode chegar a 300 ou a 500 mil usuários, porém isso se restringe às maiores cidades e a capital, sem se ter uma visão clara das realidades no interior. A difícil recuperação dos usuários é considerada um dos fatores mais agravantes deste tipo de droga.

Os fatores resultantes de sua utilização tão amplamente conhecidos hoje são: a degradação física, a quebra dos laços sociais e relacionamentos familiares, a marginalização, os fenômenos psicóticos e o isolamento do indivíduo. Além de outros fatores como, a baixa escolaridade, a pobreza, serem jovens (principalmente homens) e pessoas vindas de famílias desestruturadas, se somam para produzir um quadro desanimador para aqueles que intentam pensar e promover políticas públicas que contemplem uma solução viável para o problema.

Para incrementar ainda mais as dificuldades, não existe nenhum medicamento que possa ser usado no tratamento da dependência química capaz de diminuir a vontade de usar a droga. Nossos hospitais gerais, em sua grande maioria, não dispõem de psiquiatras e muito menos de psiquiatras especializados em dependência química para o atendimento clínico e emergencial. Também não dispõem de estrutura física nem de enfermagem e corpo técnico treinado para esse tipo de atendimento.

Além de tudo isso há as críticas feitas pelos profissionais da saúde, como os psiquiatras, que consideram que não existe ainda uma visão ampla das questões associadas no uso do crack. Esses profissionais afirmam que não se pode tratar o usuário simplesmente como um “transgressor” ou como um “ser criativo” quando do ato dele se utilizar das drogas, romantizando o problema. Também não há, para os mesmos, a utilização do livre arbítrio nesse uso.

Ao contrário, o cérebro de um dependente é danificado e modificado de tal modo que a pessoa deixa de ter escolhas, só restando a busca da substância como objetivo e sentido da vida. Outra coisa asseverada por alguns é que não há uma cultura de prevenção da utilização das drogas em nosso país, pois tradicionalmente realizamos a política do “apagar o incêndio”, sempre sofrendo os prejuízos deste modelo de atuação. É sabido que como povo, somos altamente tolerantes e muito pouco precavidos e isso não nos ajuda na resolução de problemas mais graves.

Neste momento, o problema é o crack, mas não podemos minimizar que paralelamente e simultaneamente, sofremos na mesma medida com outras drogas, como a maconha, a cocaína e etc., e ainda com as legalizadas, como o tabaco e o álcool. Todas elas igualmente têm sua parcela na destruição do tecido social no qual vivemos. Todas elas possuem o poder dizimador da saúde de seus usuários e as consequências para a economia do Brasil.

As soluções não podem ser simplistas e o remédio não é um fármaco único que poderia resolver prontamente todas as doenças e os resultados delas manifestos diante de nós todos os dias. Para problemas complexos exigem-se soluções complexas, multidisciplinares, amplas, com cosmovisão holística, incluindo não apenas o indivíduo todo, mas também sua rede de relacionamentos. Isto sim se configura no tremendo desafio para a nossa sociedade atualmente. Não é trabalho somente para especialistas, mas para todos: a sociedade, as comunidades, os governos, os pensadores, a igreja, os canais de comunicação e a família. Todos.


Carlos Carvalho
2 de junho de 2014

Referências:

CRACK: UM DESAFIO SOCIAL. Sapori LF, MedeirosR, organizadores. Belo Horizonte: EditoraPUC Minas; 2010. 220 p.ISBN: 978-85-60778-70-6. Resenha. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 28(2):405-406, fev, 2012. PDF.

DEBATES. Publicação da ABP – Associação Brasileira de Psiquiatria. Ano 2. Nº3. Mai.Jun de 2010.

GEOGRAFIA DA DROGA: um desafio sem dimensão. Jornal O Estadão.
Disponível em: http://infograficos.estadao.com.br/especiais/crack/geografia-da-droga-um-desafio%20sem-dimensao.html. Acessado em 02.06.2014.

Imagem. Pedras de crack. Arquivo pessoal.


19 de mar. de 2014

Robocop à moda de um brasileiro

Este é um filme lançado recentemente pela MGM e Columbia Pictures, mas com a direção de um brasileiro, José Padilha. O assisti com parte de minha família numa destas noites num cinema em Guarulhos. Chamou-se a atenção as abordagens do filme, coisas que somente hoje fazem parte de minha consciência crítica. Descrevo abaixo a sinopse do filme que é encontrada em qualquer lugar da internet que se ocupe de entretenimento e cinema:

“Em um futuro não muito distante, no ano de 2028, drones não tripulados e robôs são usados para garantir a segurança mundo afora, mas o combate ao crime nos Estados Unidos não pode ser realizado por eles e a empresa OmniCorp, criadora das máquinas, quer reverter esse cenário. Uma das razões para a proibição seria uma lei apoiada pela maioria dos americanos. Querendo conquistar a população, o dono da companhia Raymond Sellars (Michael Keaton) decide criar um robô que tenha consciência humana e a oportunidade aparece quando o policial Alex Murphy (Joel Kinnaman) sofre um atentado, deixando-o entre a vida e a morte.”

Vi seu primeiro lançamento na década de 80, portanto no período de minha adolescência e ao final da ditadura militar no Brasil, mas confesso que os temas aos quais se referia à época o filme e a própria ditadura não foram tão significativos para mim, pois além de habitar longe dos grandes centros brasileiros, em minha mente eu não via claramente os temas e os eventos como realidades para mim.

Não sei até que ponto o diretor José Padilha tinha em mente os temas que percebi como sendo o enredo, a trama e a engrenagem por meio dos quais se desenvolve o filme. Não posso aferir o quanto de consciência crítica e social o diretor possui, mas se ele teve controle sobre o roteiro, fica patente o tamanho de sua crítica inserida no contexto. Abordo esses temas de forma sucinta e superficial, porque não sou especialista em filmes, em roteiros ou crítico de cinema.

O poder da mídia

É a primeira coisa que aparece na primeira cena: o apresentador Pat Novac – interpretado pelo inconfundível Samuel L. Jacson – em um programa que parece ser o principal de uma rede de TV de um canal catalisador e fomentador de tendências aos telespectadores americanos, fazendo uma apologia à necessidade de se ter em solo americano a presença das máquinas de defesa da OmniCorp com a finalidade de trazer mais segurança e evitar que vidas de homens sejam perdidas no combate ao crime.

Por todo o filme pode ser vista a presença do apresentador, ora defendendo o magnata da corporação e, portanto, a possibilidade de suas máquinas estarem na ativa nos EUA, ora tentando influenciar a opinião pública contra a lei federal que impede que isso aconteça. É muito clara a ideia por trás do filme que a mídia de fato é o “quarto poder”, e este “poder” tem em suas mãos a capacidade de influenciar a sociedade, a cultura, a agenda popular e a política.

O poder do dinheiro

Não me atrevo a discorrer sobre o capital, o capitalismo ou sobre os sistemas de produção e seus resultados, pois acredito que já exista muita coisa boa escrita, muitas teses e livros sobre o assunto, mesmo que ainda não tenha sido esgotado como um todo, mas ouso me referir ao motivo concreto e real que está por trás do capitalismo: o dinheiro. Em nosso sistema financeiro atual o dinheiro é o que faz “a roda girar”, é o dinheiro que faz toda a diferença entre os que têm e os que não possuem, é ele quem cria uma sociedade hiperconsumista.

O dinheiro está orientando as estratégias, o marketing, as negociações com o Estado e com as cidades. Um dinheiro que ninguém vê é quem cria, alimenta e faz crescer as grandes corporações como a do filme. O poder tem quem controla o dinheiro. E em última instância, quem está por trás das grandes corporações, das empresas globais, portanto, quem controla o fluxo monetário de grandes somas é uma pessoa ou um grupo. E em Robocop é isto que vemos: um homem com uma enorme empresa multinacional tentando manipular o destino de pessoas e de cidades, de políticas e de nações, e tudo isso é possível com dinheiro.

O poder da política

A politica aparece no filme na perspectiva do Senado americano. Eles são responsáveis por criar as leis que deveriam beneficiar, em tese, a população em geral. São esses senadores que deveriam pensar e responder à sociedade que lhes concedeu o privilégio de representá-la, como criar e legislar para uma comunidade mais justa, mais segura e mais igualitária nos direitos. Porém, como que num jargão cotidiano vemos os políticos envolvidos no jogo de interesse das empresas globais como a OmniCorp do filme, fazendo com que, até mesmo, leis importantes sejam mudadas para beneficiar essas mesmas corporações, e isso por causa do suborno e da propina (o que o filme deixa claro) que receberam.

Não é preciso ir ao cinema para ver essa mesma dinâmica de suborno e propina que se relaciona diretamente com políticos e leis no Brasil e em qualquer lugar do mundo. É fator determinante, infelizmente para nós, que a corrupção esteja instalada subcutaneamente na política e seja fomentada pelas empresas e empresários sem caráter e sem ética em qualquer canto do mundo onde os interesses corporativos e o dinheiro falem mais alto. A “política” praticada a muito deixou de ser a gestão das coisas referentes à polis  e tornou-se a manifestação dos desejos de determinados partidos, pessoas ou grupos.

Encerrando

No filme vemos as famílias, a sociedade e até as nações completamente indefesas e debaixo das fortes mãos pressionadoras da mídia, da política e do dinheiro das corporações. Todos estão sendo manipulados e vigiados constantemente pelos sistemas criados para a sua “segurança”. Não há espaço para a fé, não há espaço para a família se relacionar, somente com a permissão dos controladores, não há mais nada a se ver na TV, apenas a programação controlada pela mídia, não há espaços para as individualidades, somente para o coletivo artificialmente planejado, e não há lojas e pequenos comércios, mas grandes prédios-caixotes em que trabalham número expressivo de pessoas.

A frase final do personagem de Samuel L. Jacson tem duplo sentido. Um para os americanos e outro para todos “os outros”. Ele diz (ao menos na dublagem brasileira): “A América sempre foi e sempre será o maior país da face da Terra!” Isso é bem cômico por ser trágico. Aos americanos, a sua estima é elevada e seu moral é posto nas nuvens por causa da insistência decrépita de alguns que ainda consideram que eles têm um papel fundamental no planeta acima de outros. Aos “outros”, a frase suscita ira e rejeição a um país, sim, grandioso e de imensas conquistas políticas, democráticas, educacionais, tecnológicas e sociais, mas que tem contra si décadas de ingerência negativa e equivocada no plano internacional que lhe renderam o título de “imperialista”.

Mais uma vez declaro que não tenho ideia do quanto o diretor José Padilha possuiu de influência no roteiro e nas frases do filme e tampouco do tamanho de sua consciência política e social, mas para alguém que conseguiu, em solo americano, rodar um trabalho que custou à MGM e à Columbia cerca de U$ 100.000.000,00 (cem milhões de dólares), seu sucesso vai além de um remake (palavra inglesa para refilmagem), nos dá a oportunidade de refletir o sistema capitalista, político e midiático um pouco mais e saber que, este tipo de futuro profetizado, pode se tornar bem real da maneira como as coisas caminham por aqui.


Carlos Carvalho
18 de março de 2014

Referências:

BOBBIO, NOBERTO, 1909-. Dicionário de política I Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino; trad. Carmen C, Varriale et ai.; coord. trad. João Ferreira; rev.geral João Ferreira e Luis Guerreiro Pinto Cacais. - Brasília : Editora Universidade de Brasília, 1998. Vol. 1. p. 954ss.(PDF)

LIPOVETSKY, Gilles, 1944-. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo / Gilles Lipovetsky; tradução Maria Lucia Machado. – São Paulo: Companhia das Letras, 2007. Cap. 5, p. 98ss. (PDF)

RIZZOTTO, Carla Candida. Constituição histórica do poder na mídia no Brasil: o surgimento do quarto poder. Rev. Estud. Comun., Curitiba, v. 13, n. 31, p. 111-120, maio/ago. 2012. (PDF)

ROBOCOP 2014. Direção de José Padilha, produção de Marc Abraham e Eric Newman, Roteiro de Joshua Zetumer. Ação, ficção científica e suspense. Música de Pedro Bromfman. Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer / Columbia Pictures

Imagem: http://www.fandango.com/robocop2014_153658/movietimes.


2 de mar. de 2014


STF absolve réus do mensalão do crime de formação de quadrilha

Nesta quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu pela absolvição de oito condenados do processo do mensalão pelo crime de formação de quadrilha. Seis ministros reverteram a condenação e cinco votaram pela manutenção da pena.

Nas palavras do presidente do STF, Joaquim Barbosa: “Esta é uma tarde triste para este Supremo Tribunal federal, porque, com argumentos pífios, foi reformada, jogada por terra, extirpada do mundo jurídico uma decisão plenária sólida, extremamente bem fundamentada que foi aquela tomada por este plenário no segundo semestre de 2012”.

Para os ministros que se posicionaram a favor da absolvição, não se pode comprovar a formação de quadrilha por parte dos acusados porque, para isso, a sociedade teria que ser “afetada” pelos crimes que eles cometeram e somente houve uma “reunião de práticas criminosas que tinham o objetivo a obtenção de vantagens indevidas para interesse específico dos envolvidos”, nas palavras dos ministros, Rosa Weber e Teori Zawaski.

Se a sociedade não foi afetada pelos crimes do mensalão e se essas pessoas não se reuniram conscientemente para praticar crime de lesa-pátria, então resta-nos nos consolar com algumas míseras condenações que serão alteradas em sua essência, para penas com progressão e cumprimento em liberdade e afins. Se não podemos confiar em nossa instituição máxima de justiça, como acreditaremos que haverá de fato justiça para qualquer pessoa de nossa nação.

Ao final, retornamos àquela velha frase que resiste a desaparecer de nosso vocabulário do cotidiano: “o Brasil é o país da impunidade”, de fato!

Carlos Carvalho
27 de fevereiro de 2014


19 de fev. de 2014


SÃO PAULO DOS PEDÁGIOS

É impressionante, para não dizer assustadora, a quantidade de pontos de pedágio no Estado de São Paulo. É, sem dúvida, um dos lugares do mundo com mais pedágios. Parece que o nosso país não deseja ser conhecido por esta grandeza global[1], mas é uma realidade inquestionável. 

Está diante dos meus olhos o caderno “Jornal do Carro”, do periódico O Estado de São Paulo (Estadão), e na página 6[2] apresenta o mapa dos pedágios das principais rodovias do estado paulista. Se as praças estão todas representadas neste mapa, são 147 pontos (se não errei a conta), com valores que vão desde R$ 1,50 a R$ 21,20.

Em uma situação fictícia, se somente um carro passasse por todos estes pedágios em um dia, o motorista teria desembolsado cerca de R$ 797,00, muito mais que um salário mínimo, que é de R$ 724,00, isso não incluindo as despesas com combustível. Vale lembrar que em alguns desses casos está somente contabilizada a viagem de ida.

É uma verdadeira máquina de fazer dinheiro, sem contar que atenta contra o direito constitucional de ir e vir que nos é assegurado[3]. Um cidadão não andará a pé ou de bicicleta pelas principais rodovias em certos pontos, como nos túneis, sem ser abordado ou proibido de se locomover por elas e, mesmo que a concessionária emita um boleto instantâneo para que paguemos posteriormente, se não o fizermos, receberemos multa por evasão de pedágio no valor de R$ 127,69.

Então, caso você não possua DINHEIRO, talvez não consiga sair da grande São Paulo para visitar um parente ou ir a outro estado ver seus pais. Se conseguir a proeza de sair sem pagar os pedágios, é possível que não volte por deixar de pagá-los. Não pagando a multa que virá não poderá licenciar seu veículo, por conseguinte não poderá dirigi-lo. Só de carona ou de ônibus conseguirá viajar, mas para isso precisará novamente de...DINHEIRO.

Enviei aos meus amigos o texto e um deles me respondeu:

“O Governo constrói as estradas e depois entrega a estrutura já pronta nas mãos da iniciativa privada que na verdade é quem vai desfrutar do lucro exorbitante através do preço das praças de pedágio que em sua maioria prevalece o domínio do capital estrangeiro, o quintal para eles é enorme afinal eles não vão pagar nada é tudo ¨free¨. Vamos embora dar lugar pro gringo entrar, esse imóvel tá pra alugar!”


Carlos Carvalho
Colaborou: Ricardo Carriço

18 de fevereiro de 2014




[1]Brasil lidera o ranking das rodovias com pedágio no mundo. Disponível em: http://economia.estadao.com.br/noticias/economia,brasil-lidera-o-ranking-das-rodovias-com-pedagio-no-mundo,123837,0.htm

[2]O Estado de São Paulo  Jornal do Carro. 16 de fevereiro de 2014.

[3]Constituição da República Federativa do Brasil. Parágrafo XV.  

6 de fev. de 2014


DISPARIDADES FRANCESAS

Para não falar somente do Brasil, quero apontar em direção à França. Esse país ovacionado por alguns pensadores e também por jornais e mídia em geral pela maneira como encara a laicidade de seu Estado, proibindo até mesmo que meninas mulçumanas usem seus véus (burca e niqab) nas escolas desde 2010[1] e que recentemente lançou sua Carta de Laicidade[2], defendendo a posição de uma república que permite a expressão religiosa particular, mas proíbe a sua manifestação pública (um tremendo contrassenso), tem em seu território grandes extremos inexplicáveis.

O país vive uma verdadeira “epidemia” de suicídio entre os seus adolescentes e jovens que parece ao mesmo tempo, não ter claros os indícios das causas e motivações, e que demonstra piorar a cada década[3], fazendo com que os profissionais da saúde franceses se mobilizem para encontrar uma saída. É exatamente o grupo que está no período de estudos escolares que tem manifestado a intenção de suicidar-se. Isto indica que não é a laicidade a resposta para um Estado livre desses males, mas talvez o contrário.

Paralelo a isso, acontece o outro extremo: certas aberrações judiciais. Um homem foi condenado na França a um ano de prisão em regime fechado por ter torturado um gato[4]. O cidadão foi filmado arremessando várias vezes um gato contra um muro na rua. É claro que somos contra qualquer tipo de violência contra animais e pessoas, mas isso também parece um enorme contrassenso. A França não sabe lidar com a onda de suicídio que assola os seus adolescentes (principalmente meninas), mas consegue legislar a condenação de alguém que torturou um gato? (O gato está vivo!).

Será possível que a França perdeu o mapa do caminho?

Carlos Carvalho
6 de fevereiro de 2014





[1] Senado da França proíbe o uso de véus islâmicos em público. Disponível em: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2010/09/100914_france_burca_mdb.shtml

[2]A “Carta de Laicidade” francesa. Disponível em: http://www.laicidade.org/2013/10/09/a-%C2%ABcarta-da-laicidade%C2%BB-francesa/

[3] Uma a cada cinco adolescentes francesas já tentou se matar, diz estudo. Disponível em: http://noticias.terra.com.br/mundo/europa/uma-a-cada-cinco-adolescentes-francesas-ja-tentou-se-matar-diz-estudo,58f8c37340204410VgnCLD2000000dc6eb0aRCRD.html

[4] Francês condenado por torturar gato diz ter sido 'idiota'. Disponível em: http://noticias.terra.com.br/mundo/europa/frances-condenado-por-torturar-gato-diz-ter-sido idiota,2ea338bc18ef3410VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html


1 de fev. de 2014


O SUICÍDIO – Um problema que permanece

O suicídio tem sido um problema sério nos últimos anos, principalmente no Brasil, onde registrou um aumento alarmante, isso porque nosso país não possui uma “cultura” de suicídio como em outras nações. Durante a história humana até os nossos dias o suicídio foi e é tratado basicamente de três maneiras em sua cosmovisão social: glorificado como ato heroico e libertário, como uma fuga existencial e, mais recentemente como uma doença psiquiátrica.

É uma das primeiras causas de morte em homens jovens nos países desenvolvidos e emergentes. Mata 26 brasileiros por dia. No Brasil, a taxa de suicídio entre adolescentes e jovens aumentou pelo menos 30% nos últimos 25 anos. Veja o quadro abaixo:

  
É importante notar que algumas causas principais já foram apontadas até aqui pelo estudo ou observação dos casos. As pessoas podem tentar ou cometer suicídio por diversos motivos, entre eles estão:
·         Numa tentativa de se livrarem de uma situação de extrema aflição, para a qual acham que não há solução.
·         Por estarem num estado psicótico, isto é, fora da realidade.
·         Por se acharem perseguidas, sem alternativa de fuga.
·         Por se acharem deprimidas, achando que a vida não vale a pena.
·         Por terem uma doença física incurável e se acharem desesperançados com sua situação.
·         Por serem portadores de um transtorno de personalidade e atentarem contra a vida num impulso de raiva ou para chamar a atenção.

Existem também até o momento certos indicadores de risco, mesmo que, de forma geral, o suicídio não pode ser previsto. Eis alguns deles:
·         Tentativa anterior ou fantasias de suicídio.
·         Disponibilidade de meios para o suicídio.
·         Ideias de suicídio abertamente faladas.
·         Preparação de um testamento.
·         Luto pela perda de alguém próximo.
·         História de suicídio na família.
·         Pessimismo ou falta de esperança, entre outras.

Pessoas que apresentem tais indicadores devem ser observadas mais atentamente. Entretanto não se pode ter certeza alguma a respeito, pois a ideia de morrer pode mudar na mente da pessoa, de um momento para outro.

Para Émile Durkheim (1858-1917), considerado o pai da Sociologia moderna, que estudou os casos de suicídio na Europa no período que compreendeu os dados disponíveis entre 1841 a 1890 aproximadamente, as sociedades doméstica, religiosa e política são fortemente integradas em suas estruturas. Essa integração dá sentido à vida do indivíduo nas sociedades. Quando esta sociedade perde a capacidade de dar a essa pessoa esse sentido, então ela se vê desamparada moralmente e se inicia o processo de desintegração social. O suicídio acontece, então, porque a pessoa não está mais conectada aos laços sociais.

Em todos os casos de estudados até o momento, tudo parece indicar que o suicídio corresponde, exceto nos casos de grave doença mental, uma imposição brutal de fatores sociais que impelem os indivíduos a cometerem o ato. Então, o suicídio é, nestes casos, causado por fatores externos, mas profundamente arraigados no emocional da pessoa progressivamente à medida que esses desconstrutores do sentido da vida vão agindo em seu interior.

Embora devamos levar em consideração os causadores principais do suicídio nos três aspectos principais, o ato heroico (dar a vida por causa de outrem), a doença mental ou a fuga, neste último caso, a decisão de dar cabo à própria vida é um ato de desespero tão grande e de rompimento com a realidade que é entristecedor ver que essa cruel realidade ainda acontece. Foi Jesus quem nos ensinou sobre o valor da vida sobre todas as outras coisas:

A vida é mais importante do que a comida, e o corpo, mais do que as roupas.
Lucas 12:23 (NVI)

Carlos Carvalho

Referências:

Taxa de suicídio entre jovens cresce 30% em 25 anos no Brasil. Folha de São Paulo. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2013/06/1292216-para-cineasta-que-fez-filme-sobre-suicidio-da-irma-desinformacao-leva-a-tragedia.shtml
Taxa de suicídio no mundo. UNESP 2010. Pdf. http://www.unesp.br/aci_ses/revista_unespciencia/acervo/13/com-saida.

Suicídio. ABC da Saúde. http://www.abcdasaude.com.br/artigo.php?401#ixzz2q2onrrdQ