18 de jun. de 2014


Percepção de Hamster

São bichinhos fofinhos e desejados por muitas crianças e até por adultos no Ocidente. São roedores e, por natureza, destroem tudo o que for de madeira e papel em seu ambiente, mas isso é natural, pois seus dentes necessitam disso. Gostam de seus brinquedos e entre eles as rodas giratórias. Elas são essenciais para aliviar o estresse e ajudar o hamster a não ficar obeso.

Apresentação feita estive pensando estes dias sobre este animalzinho quando está girando aquela roda. Para o hamster todo o mundo ao seu redor se move enquanto se exercita ali. As pessoas passam por ele, luzes se acendem e apagam, móveis são tirados do lugar, tudo se move ao seu redor, mas ele, ainda que movimentando-se, não sai do lugar.

Pensei que esta situação pode ter alguma conexão conosco. Imagine que a vida está passando, as pessoas estão se locomovendo indo de um lado para outro, as coisas estão se movendo, os veículos passam próximos de nós e ouvimos seus sons, ouvimos as vozes de outros passando, todo o mundo se move, mas nós podemos estar num movimento de hamster.

No movemos ao redor de nós mesmos e de nossos impulsos, realizamos ações que não criam qualquer tipo de sinergia com outros, vivemos enclausurados em nossas próprias rodas giratórias da alma, e o pior, como um hamster, é possível que estejamos pensando que fazemos parte do movimento do mundo ao nosso redor. Isso é altamente preocupante.

É preciso sair de nossas gaiolas giratórias da alma, é necessário criar sinergia com outros, é preciso se envolver com a vida e conviver com o nosso entorno de pessoas e de demandas sociais, é preciso ser solidários e olhar para além de nossos guetos particulares e é igualmente necessário destruir a percepção de hamster em nosso olhar da vida e do mundo.


C. K. Carvalho

11 de junho de 2014

11 de jun. de 2014


Analfabetismo no Brasil – o mesmo do mesmo

Folheando uma antiga Enciclopédia Barsa de 1977, leio que nos anos 1970, o Censo Demográfico contava que 38% da população de então era analfabeta, num universo de mais de 93 milhões de pessoas oficialmente. Fiquei curioso e me detive um pouco de meus afazeres para pesquisar o quadro atual de nossas condições. Fui à “Barsa” de nossos dias, o Google, para verificar alguma notícia oficial.

Segundo as pesquisas do IBGE, o Brasil em 2000 contava em sua população com 12,8% de analfabetos e já no Censo de 2010, esse índice caiu para 9%. Isto significa duas coisas básicas: o nível de escolarização dos brasileiros aumentou nos últimos 40 anos e o número de alfabetizados passou para 91% em nossa população. Em 2012, os dados parciais já apontavam que o número de analfabetos haviam novamente caído para 8,7% do número total de brasileiros. Os dados são promissores.

Porém, outro quadro aparece que faz com que se necessite repensar a forma ou as técnicas utilizadas na alfabetização por aqui. O IBGE apontava em 2001 que 33% dos brasileiros eram analfabetos funcionais e em 2012 eram 20%. Hoje diz-se que esta taxa está em 18,4%. Uma pessoa considerada analfabeta funcional pode variar em dois níveis mais comuns para efeito de comparação. Vejamos:

Alfabetizados em nível rudimentar: localizam uma informação explícita em textos curtos e familiares (como, por exemplo, um anúncio ou pequena carta), leem e escrevem números usuais e realizam operações simples, como manusear dinheiro para o pagamento de pequenas quantias.

Alfabetizados em nível básico: leem e compreendem textos de média extensão, localizam informações mesmo com pequenas inferências, leem números na casa dos milhões, resolvem problemas envolvendo uma sequência simples de operações e têm noção de proporcionalidade.

     Agora façamos a matemática básica. Estamos em 2014 e lidamos com os dados do IBGE até 2012, mas estatisticamente podemos fazer inferências pelos números. Ao somarmos o número de analfabetos brasileiros com o de analfabetos funcionais, contamos ainda com o elevado percentual de 27,1% segundo as melhores pesquisas. Isto significa novamente duas coisas:
1.                              
                  Avançamos realmente na questão da alfabetização básica das pessoas.
2.     
                Mas em 42 anos só conseguimos alfabetizar plenamente 11% do total de analfabetos em relação ao percentual de 1970.

     Com esse percentual de alfabetização o crescimento de plenos alfabetizados foi de apenas 2,75% a cada 10 anos e 0,27% a cada ano, bem diferente das taxas apresentadas pelos nossos órgãos oficiais que declaram que o índice de analfabetismo cai 0,4% ao ano. Desta forma, é clara e evidente que nossa política educacional necessita de mudanças concretas para que os números não sejam alterados somente por causa de palavras – analfabetos / analfabetos funcionais / alfabetizados básicos – mas que alcancemos o nível sonhado de elevado percentual de plenamente alfabetizados.

      Sabemos que as condições de 40 anos atrás eram outras, a população era bem menor que a atual e os acessos também, mas na era da tecnologia é inaceitável as desculpas de hoje em nome das dificuldades do passado. Num país onde a educação é um direito constitucional, ainda estamos longe de tornar-se uma realidade plena para todos. A educação é um esforço consciente de todos, dos pais, da sociedade e do Estado.

       À luta, Brasil!


Carlos Carvalho
Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Metodista de São Paulo

Referências:

Constituição da República Federativa do Brasil. Texto atualizado 2013. Pdf. Artigo 205.

Enciclopédia Barsa. São Paulo:Encyclopaedia Britannica Editores Ltda, 1977. Volume 3. p. 237-238.

IBGE: analfabetismo cresce pela primeira vez desde 1998. Disponível em: http://noticias.terra.com.br/educacao/ibge-analfabetismo-cresce-pela-primeira-vez-desde-1998,e5e1e55448c51410VgnVCM3000009acceb0aRCRD.html. Acessado em 10/06/2014.

Inaf aponta o perfil do analfabeto funcional brasileiro. Disponível em: http://www.ibope.com.br/pt-br/noticias/Paginas/Inaf-aponta-o-perfil-do-analfabeto-funcional-brasileiro.aspx. Acessado em 10/06/2014.

Taxa de analfabetismo para de cair no Brasil após 15 anos, diz Pnad54. Disponível em: http://educacao.uol.com.br/noticias/2013/09/27/analfabetismo-volta-a-crescer-no-brasil-apos-mais-de-15-anos-de-queda.htm. Acessado em 10/06/2014.

Você sabia que o número de pessoas que não sabem ler ou escrever está diminuindo no Brasil? Disponível em: http://7a12.ibge.gov.br/vamos-conhecer-o-brasil/nosso-povo/educacao. Acessado em 10/06/2014.




MACONHA e seus defensores

No início do mês de junho de 2014, aconteceu o debate na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) do Senado para considerar as possibilidades da legalização da maconha no Brasil. O evento é parte da proposta do Senado para compreender o problema e tentar dar uma justificativa posterior na elaboração de uma futura lei que permita ou proíba o seu uso em nosso país.

A principal declaração dessa reunião ficou por conta do representante do Uruguai, Julio Heriberto Calzada, Secretário Nacional de Drogas do Uruguai, o primeiro país da América do Sul a sancionar o uso legal da substância. Segundo ele, O Uruguai conseguiu reduzir a zero as mortes ligadas ao uso e ao comércio da maconha desde que o país adotou regras para regulamentar o cultivo e a venda da droga. Ele participou de debate na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH).

Em resposta ao senador Cristovam Buarque (PDT-DF), Calzada disse que a legalização da maconha talvez aumente o número de usuários, mas ele acredita que a combinação com outras ferramentas de política pública, em aspectos culturais e sociais, poderão modificar padrões de consumo e levar ao êxito na redução de usuários. Conforme relatou, o país assegura o acesso legal à maconha por meio de autocultivo, com até seis pés por cada moradia; pela participação de clubes de cultivo, com 15 a 45 membros; ou pela aquisição a partir de um sistema de registro controlado pelo governo.

Chama-nos a atenção que a Comissão do Senado ainda parece não ter compreendido que esta é uma discussão que caminha na direção errada, pois não leva em consideração dois fatores extremamente importantes no cenário global. O primeiro é que a Organização das Nações Unidas (ONU) em todas as suas publicações de saúde não aconselha a nenhum país do mundo na rota da legalização de quaisquer drogas – e isso é de grande importância, visto que esta organização leva em questão publicações e pesquisas feitas com os maiores especialistas do mundo – e isso vai do tabaco ao álcool.

A segunda tão séria quanto a primeira é que países da Europa como Países Baixos (Holanda), Suíça e Dinamarca, outrora celebrados como os grandes líderes na liberação total do uso das drogas e de outras atividades como a prostituição, seguem atualmente uma inversão quase que total de suas anteriores ações, vetando, fechando locais e sendo mais rígidos com as drogas. Fica a pergunta: porque não convocaram para a mesma seção representantes desses países a fim de se averiguar que a realidade após algumas décadas não foi a esperada pelas autoridades?

Por fim, chamar um representante de um país pequeno de pouco mais de 3 milhões de habitantes, em que a legalização da droga não fez nem aniversário de um ano para tentar nos dizer que neste meses de vigência da lei não houve nenhuma morte em seu país por causa da legalização da maconha é uma piada de mau gosto. Quem em sã consciência acreditaria no que esse senhor declarou? Somente os que têm a ganhar com tal descalabro. Um claro caso de manipulação de palavras.

Quantas pessoas morreram oficialmente no Brasil na última década por uso da substância chamada maconha? Nenhum. Simplesmente porque esse número não existe. As mortes não são causadas pelo uso da maconha, mas por intoxicações (overdoses) ou crimes relacionados com o tráfico, portanto, sequer precisávamos ouvir o Sr. Calzada sobre isso. Também é fato que o uso da maconha provoca doenças e alterações mentais que podem prejudicar definitivamente quem usa e isso já está documentado por pesquisas. Resta-nos somente esperar o desfecho.


Carlos Carvalho
Junho de 2014

Referências:

Maconha. Publicação do Ministério da Justiça. Disponível em: http://www.obid.senad.gov.br/portais/OBID/conteudo/index.php?id_conteudo=11294&rastro=INFORMA%C3%87%C3%95ES+SOBRE+DROGAS%2FTipos+de+drogas/Maconha

Mudanças na Vitrine. Revista Veja. Disponível em: http://www.tribunadaimprensa.com.br/?p=26897.

Relatório Brasileiro sobre Drogas 2013. Disponível em: http://www.escs.edu.br/arquivos/RelatorioBrasileirosobreDrogasResumoExecutivo.pdf

Relatório Mundial sobre Drogas 2013. Disponível em: http://www.onu.org.br/relatorio-mundial-sobre-drogas-2013-observa-a-estabilidade-no-uso-de-drogas-tradicionais-e-aponta-o-aumento-alarmante-de-novas-substancias-psicoativas/

Senado debate proposta para regulamentar uso da maconha no Brasil. O Dia Brasil. Disponível em: http://odia.ig.com.br/noticia/brasil/2014-06-02/senado-debate-proposta-para-regulamentar-uso-da-maconha-no-brasil.html.


Identidade: brasileiro

A brasilidade são as coisas que caracterizam as pessoas que amam e moram no Brasil e nos distinguem das demais nações. Como povo somos uma grande mistura de vários povos, inicialmente dos ameríndios, portugueses e negros, e até os nossos dias uma enorme miscigenação acontece com uma infinidade de uniões de brasileiros com pessoas de outras nações. Mas todos que aqui habitam são BRASILEIROS – os nascidos ou os nacionalizados.

Com esta definição em mente é preciso fazer uma distinção bem nítida das coisas. Não somos norteamericanos, não somos latinos, não somos asiáticos nem africanos ou nenhuma outra denominação estrangeira, somos BRASILEIROS. Não estamos criticando as nações ou exercendo alguma forma de preconceito xenofóbico, pois o brasileiro está de braços abertos a todas as nações. Cremos que quanto mais nos miscigenamos, mais fortes somos, porque ao adquirirmos características de outros povos, saímos mais robustecidos com isso.

A miscigenação neste caso específico funciona não como um fator deficitário de nossa identidade, mas ao contrário, como um catalisador que absorve o melhor que os outros têm. É certo que as fraquezas e a impiedade também são passadas nesse processo, mas ao cabo dos anos, elas vão dando lugar ao melhor se soubermos lidar com elas e suplantá-las. O brasileiro é um constante miscigenado e precisamos aprender a usar isso a nosso favor.

Portanto, há uma cultura propriamente brasileira e ela não é uma cultura indígena, européia, americana ou africana. Os que querem nos fazer viver ou impor outras culturas sobre nós, de fato não pensam como brasileiros, mas como estrangeiros. Somos mais que uma única fonte cultural, somos a soma de todas as que nos geraram. Se pudéssemos criar uma síntese de tudo isso o que diríamos? Se pudéssemos gerar um supra-sumo dessas culturas, quais características sobressairiam às demais?

O(A) BRASILEIRO(A) ama a sua pátria, ama o seu chão, ama as suas florestas e biomas diversos, ama suas praias, é apaixonado(a) pela família, é extremamente alegre, mesmo nas dificuldades, é forte nas provações, gosta de suas festas (que ele(a) mesmo(a) transformou), ama a Deus acima de tudo, é solidário(a), é pacífico(a), mas se precisar será guerreiro(a) ao extremo, é inteligente e criativo(a), é rico em sentimentos, é portador da vida.

Isto é ser brasileiro(a), o resto é parte das culturas que tentam nos doutrinar e disciplinar para sermos algo diferente do que somos. Sei que é difícil digerir isto, mas não somos católicos, não somos evangélicos, não somos protestantes, não somos espíritas ou outra coisa religiosa, em primeira instância somos BRASILEIROS(AS). Todos nós, negros, pardos, amarelos, indígenas ou brancos, somos BRASILEIROS(AS). Não há outra denominação mais forte do que esta, que nos identifica conosco mesmo, somos BRASILEIROS(AS).

Parabéns, ó brasileiro,
Já, com garbo varonil,
Do universo entre as nações
Resplandece a do Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.
(Últimas estrofes do Hino da Independência)


C. K. Carvalho
10 de junho de 2014
Teólogo e graduando em Ciências Sociais pela Universidade Metodista de São Paulo

Fundador da ONG ABAN Brasil

6 de jun. de 2014


AÇÕES QUE MERECEM SER COPIADAS

No final do ano de 2012 líamos esta notícia:

Presos que lerem e entenderem obra de Dostoiévski terão pena reduzida

A Vara Criminal de Joaçaba, sob comando do juiz Márcio Umberto Bragaglia, deu a largada ao projeto Reeducação do Imaginário, que consiste na distribuição de obras clássicas aos apenados da comarca, para leitura e posterior cobrança de pontos em entrevistas com o magistrado e seus assessores. Os participantes que demonstrarem melhor compreensão do conteúdo, respeitada a capacidade intelectual de cada apenado, poderão ser beneficiados com a remição de quatro dias de suas respectivas penas.

O primeiro módulo do projeto consiste na leitura da obra Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski. No segundo módulo, para o qual já existe etapa de aquisição de livros, os apenados lerão O Coração das Trevas, de Joseph Konrad. Depois virão obras de William Shakespeare, Charles Dickens, Walter Scott, Camilo Castelo Branco e outros autores, todos recomendados por intelectuais do calibre de Otto Maria Carpeaux, Olavo de Carvalho, Harold Bloom e Mortimer J. Adler. Os livros serão adquiridos em edições de bolso, diretamente com verbas de transação penal destinadas ao Conselho da Comunidade, que juntamente com o Presídio Regional de Joaçaba participa do projeto encabeçado pela Vara Criminal.

O projeto (...) visa a reeducação do imaginário dos apenados pela leitura de obras que apresentam experiências humanas sobre a responsabilidade pessoal, a percepção da imortalidade da alma, a superação das situações difíceis pela busca de um sentido na vida, os valores morais e religiosos tradicionais e a redenção pelo arrependimento sincero e pela melhora progressiva da personalidade, o que a educação pela leitura dos clássicos fomenta, interpreta o juiz Bragaglia, declaradamente inspirado nas lições de educação do filósofo Olavo de Carvalho, a quem considera o maior pensador brasileiro vivo e em atividade.

Naquela manhã, reunidos no Salão do Júri, os apenados participantes do projeto todos voluntários - ouviram palestra do juiz Bragaglia: “Não vou subestimar a capacidade de vocês, não vou sugerir que leiam best-sellers, autoajuda, subliteratura ou outras inutilidades. Ao contrário! Todo ser humano, por mais difícil que seja sua situação ou por mais precária que tenha sido sua educação, tem condições de ler grandes obras com proveito, e é isto que torna essas obras eternas: o quanto elas falam da experiência concreta, da alma humana”, comentou o magistrado. Ao final, cada participante recebeu uma edição de Crime e Castigo, acompanhada de um dicionário de bolso. O projeto conta com o apoio e a participação do Ministério Público de Santa Catarina, por meio do promotor de justiça criminal de Joaçaba, Protásio Campos Neto.

Em fevereiro de 2013 foram realizadas as primeiras entrevistas de avaliação dos presos participantes do primeiro módulo do “Projeto Reeducação do Imaginário”, e atualmente mais de 60 presos participam voluntariamente do projeto, entre homens e mulheres. É prematuro para afirmar se os objetivos de formação e aprimoramento do caráter, bem como ampliação do horizonte de consciência moral dos detentos foram ou serão atingidos, mas esperamos que ações educacionais e de reeducação dos apenados visando sua reinserção na sociedade sejam cada vez mais amplas.

Carlos Carvalho
Junho de 2014

Referências:
JusBrasil
Disponível em: http://tj-sc.jusbrasil.com.br/noticias/100201916/presos-que-lerem-e-entenderem-obra-de-dostoievski-terao-pena-reduzida. Acessado em 04/06/2014.
Mídia sem Máscara

Disponível em: http://www.midiasemmascara.org/artigos/cultura/13954-reeducacao-do-imaginario-primeiras-impressoes-e-resultados.html

4 de jun. de 2014


Crack – a droga da vez

É propagado quase que diariamente nas principais cidades e veículos de comunicação do Brasil que o crack representa o atual desafio para a sociedade e governos no quesito da dependência química nos dias de hoje. Esta droga, que é subproduto da cocaína, figura como um dos principais inimigos de nossa saúde pública. Apesar de todos os exageros anunciados, não se pode negligenciar o resultado destrutivo de qualquer substância química viciante, principalmente o do crack.

Ele apareceu no Brasil por volta de 1990 e, desde lá, seu consumo não parou de crescer. As estimativas mais conservadoras dizem que a população de consumidores desta droga, só no estado de São Paulo pode chegar a 300 ou a 500 mil usuários, porém isso se restringe às maiores cidades e a capital, sem se ter uma visão clara das realidades no interior. A difícil recuperação dos usuários é considerada um dos fatores mais agravantes deste tipo de droga.

Os fatores resultantes de sua utilização tão amplamente conhecidos hoje são: a degradação física, a quebra dos laços sociais e relacionamentos familiares, a marginalização, os fenômenos psicóticos e o isolamento do indivíduo. Além de outros fatores como, a baixa escolaridade, a pobreza, serem jovens (principalmente homens) e pessoas vindas de famílias desestruturadas, se somam para produzir um quadro desanimador para aqueles que intentam pensar e promover políticas públicas que contemplem uma solução viável para o problema.

Para incrementar ainda mais as dificuldades, não existe nenhum medicamento que possa ser usado no tratamento da dependência química capaz de diminuir a vontade de usar a droga. Nossos hospitais gerais, em sua grande maioria, não dispõem de psiquiatras e muito menos de psiquiatras especializados em dependência química para o atendimento clínico e emergencial. Também não dispõem de estrutura física nem de enfermagem e corpo técnico treinado para esse tipo de atendimento.

Além de tudo isso há as críticas feitas pelos profissionais da saúde, como os psiquiatras, que consideram que não existe ainda uma visão ampla das questões associadas no uso do crack. Esses profissionais afirmam que não se pode tratar o usuário simplesmente como um “transgressor” ou como um “ser criativo” quando do ato dele se utilizar das drogas, romantizando o problema. Também não há, para os mesmos, a utilização do livre arbítrio nesse uso.

Ao contrário, o cérebro de um dependente é danificado e modificado de tal modo que a pessoa deixa de ter escolhas, só restando a busca da substância como objetivo e sentido da vida. Outra coisa asseverada por alguns é que não há uma cultura de prevenção da utilização das drogas em nosso país, pois tradicionalmente realizamos a política do “apagar o incêndio”, sempre sofrendo os prejuízos deste modelo de atuação. É sabido que como povo, somos altamente tolerantes e muito pouco precavidos e isso não nos ajuda na resolução de problemas mais graves.

Neste momento, o problema é o crack, mas não podemos minimizar que paralelamente e simultaneamente, sofremos na mesma medida com outras drogas, como a maconha, a cocaína e etc., e ainda com as legalizadas, como o tabaco e o álcool. Todas elas igualmente têm sua parcela na destruição do tecido social no qual vivemos. Todas elas possuem o poder dizimador da saúde de seus usuários e as consequências para a economia do Brasil.

As soluções não podem ser simplistas e o remédio não é um fármaco único que poderia resolver prontamente todas as doenças e os resultados delas manifestos diante de nós todos os dias. Para problemas complexos exigem-se soluções complexas, multidisciplinares, amplas, com cosmovisão holística, incluindo não apenas o indivíduo todo, mas também sua rede de relacionamentos. Isto sim se configura no tremendo desafio para a nossa sociedade atualmente. Não é trabalho somente para especialistas, mas para todos: a sociedade, as comunidades, os governos, os pensadores, a igreja, os canais de comunicação e a família. Todos.


Carlos Carvalho
2 de junho de 2014

Referências:

CRACK: UM DESAFIO SOCIAL. Sapori LF, MedeirosR, organizadores. Belo Horizonte: EditoraPUC Minas; 2010. 220 p.ISBN: 978-85-60778-70-6. Resenha. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 28(2):405-406, fev, 2012. PDF.

DEBATES. Publicação da ABP – Associação Brasileira de Psiquiatria. Ano 2. Nº3. Mai.Jun de 2010.

GEOGRAFIA DA DROGA: um desafio sem dimensão. Jornal O Estadão.
Disponível em: http://infograficos.estadao.com.br/especiais/crack/geografia-da-droga-um-desafio%20sem-dimensao.html. Acessado em 02.06.2014.

Imagem. Pedras de crack. Arquivo pessoal.


19 de mar. de 2014

Robocop à moda de um brasileiro

Este é um filme lançado recentemente pela MGM e Columbia Pictures, mas com a direção de um brasileiro, José Padilha. O assisti com parte de minha família numa destas noites num cinema em Guarulhos. Chamou-se a atenção as abordagens do filme, coisas que somente hoje fazem parte de minha consciência crítica. Descrevo abaixo a sinopse do filme que é encontrada em qualquer lugar da internet que se ocupe de entretenimento e cinema:

“Em um futuro não muito distante, no ano de 2028, drones não tripulados e robôs são usados para garantir a segurança mundo afora, mas o combate ao crime nos Estados Unidos não pode ser realizado por eles e a empresa OmniCorp, criadora das máquinas, quer reverter esse cenário. Uma das razões para a proibição seria uma lei apoiada pela maioria dos americanos. Querendo conquistar a população, o dono da companhia Raymond Sellars (Michael Keaton) decide criar um robô que tenha consciência humana e a oportunidade aparece quando o policial Alex Murphy (Joel Kinnaman) sofre um atentado, deixando-o entre a vida e a morte.”

Vi seu primeiro lançamento na década de 80, portanto no período de minha adolescência e ao final da ditadura militar no Brasil, mas confesso que os temas aos quais se referia à época o filme e a própria ditadura não foram tão significativos para mim, pois além de habitar longe dos grandes centros brasileiros, em minha mente eu não via claramente os temas e os eventos como realidades para mim.

Não sei até que ponto o diretor José Padilha tinha em mente os temas que percebi como sendo o enredo, a trama e a engrenagem por meio dos quais se desenvolve o filme. Não posso aferir o quanto de consciência crítica e social o diretor possui, mas se ele teve controle sobre o roteiro, fica patente o tamanho de sua crítica inserida no contexto. Abordo esses temas de forma sucinta e superficial, porque não sou especialista em filmes, em roteiros ou crítico de cinema.

O poder da mídia

É a primeira coisa que aparece na primeira cena: o apresentador Pat Novac – interpretado pelo inconfundível Samuel L. Jacson – em um programa que parece ser o principal de uma rede de TV de um canal catalisador e fomentador de tendências aos telespectadores americanos, fazendo uma apologia à necessidade de se ter em solo americano a presença das máquinas de defesa da OmniCorp com a finalidade de trazer mais segurança e evitar que vidas de homens sejam perdidas no combate ao crime.

Por todo o filme pode ser vista a presença do apresentador, ora defendendo o magnata da corporação e, portanto, a possibilidade de suas máquinas estarem na ativa nos EUA, ora tentando influenciar a opinião pública contra a lei federal que impede que isso aconteça. É muito clara a ideia por trás do filme que a mídia de fato é o “quarto poder”, e este “poder” tem em suas mãos a capacidade de influenciar a sociedade, a cultura, a agenda popular e a política.

O poder do dinheiro

Não me atrevo a discorrer sobre o capital, o capitalismo ou sobre os sistemas de produção e seus resultados, pois acredito que já exista muita coisa boa escrita, muitas teses e livros sobre o assunto, mesmo que ainda não tenha sido esgotado como um todo, mas ouso me referir ao motivo concreto e real que está por trás do capitalismo: o dinheiro. Em nosso sistema financeiro atual o dinheiro é o que faz “a roda girar”, é o dinheiro que faz toda a diferença entre os que têm e os que não possuem, é ele quem cria uma sociedade hiperconsumista.

O dinheiro está orientando as estratégias, o marketing, as negociações com o Estado e com as cidades. Um dinheiro que ninguém vê é quem cria, alimenta e faz crescer as grandes corporações como a do filme. O poder tem quem controla o dinheiro. E em última instância, quem está por trás das grandes corporações, das empresas globais, portanto, quem controla o fluxo monetário de grandes somas é uma pessoa ou um grupo. E em Robocop é isto que vemos: um homem com uma enorme empresa multinacional tentando manipular o destino de pessoas e de cidades, de políticas e de nações, e tudo isso é possível com dinheiro.

O poder da política

A politica aparece no filme na perspectiva do Senado americano. Eles são responsáveis por criar as leis que deveriam beneficiar, em tese, a população em geral. São esses senadores que deveriam pensar e responder à sociedade que lhes concedeu o privilégio de representá-la, como criar e legislar para uma comunidade mais justa, mais segura e mais igualitária nos direitos. Porém, como que num jargão cotidiano vemos os políticos envolvidos no jogo de interesse das empresas globais como a OmniCorp do filme, fazendo com que, até mesmo, leis importantes sejam mudadas para beneficiar essas mesmas corporações, e isso por causa do suborno e da propina (o que o filme deixa claro) que receberam.

Não é preciso ir ao cinema para ver essa mesma dinâmica de suborno e propina que se relaciona diretamente com políticos e leis no Brasil e em qualquer lugar do mundo. É fator determinante, infelizmente para nós, que a corrupção esteja instalada subcutaneamente na política e seja fomentada pelas empresas e empresários sem caráter e sem ética em qualquer canto do mundo onde os interesses corporativos e o dinheiro falem mais alto. A “política” praticada a muito deixou de ser a gestão das coisas referentes à polis  e tornou-se a manifestação dos desejos de determinados partidos, pessoas ou grupos.

Encerrando

No filme vemos as famílias, a sociedade e até as nações completamente indefesas e debaixo das fortes mãos pressionadoras da mídia, da política e do dinheiro das corporações. Todos estão sendo manipulados e vigiados constantemente pelos sistemas criados para a sua “segurança”. Não há espaço para a fé, não há espaço para a família se relacionar, somente com a permissão dos controladores, não há mais nada a se ver na TV, apenas a programação controlada pela mídia, não há espaços para as individualidades, somente para o coletivo artificialmente planejado, e não há lojas e pequenos comércios, mas grandes prédios-caixotes em que trabalham número expressivo de pessoas.

A frase final do personagem de Samuel L. Jacson tem duplo sentido. Um para os americanos e outro para todos “os outros”. Ele diz (ao menos na dublagem brasileira): “A América sempre foi e sempre será o maior país da face da Terra!” Isso é bem cômico por ser trágico. Aos americanos, a sua estima é elevada e seu moral é posto nas nuvens por causa da insistência decrépita de alguns que ainda consideram que eles têm um papel fundamental no planeta acima de outros. Aos “outros”, a frase suscita ira e rejeição a um país, sim, grandioso e de imensas conquistas políticas, democráticas, educacionais, tecnológicas e sociais, mas que tem contra si décadas de ingerência negativa e equivocada no plano internacional que lhe renderam o título de “imperialista”.

Mais uma vez declaro que não tenho ideia do quanto o diretor José Padilha possuiu de influência no roteiro e nas frases do filme e tampouco do tamanho de sua consciência política e social, mas para alguém que conseguiu, em solo americano, rodar um trabalho que custou à MGM e à Columbia cerca de U$ 100.000.000,00 (cem milhões de dólares), seu sucesso vai além de um remake (palavra inglesa para refilmagem), nos dá a oportunidade de refletir o sistema capitalista, político e midiático um pouco mais e saber que, este tipo de futuro profetizado, pode se tornar bem real da maneira como as coisas caminham por aqui.


Carlos Carvalho
18 de março de 2014

Referências:

BOBBIO, NOBERTO, 1909-. Dicionário de política I Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino; trad. Carmen C, Varriale et ai.; coord. trad. João Ferreira; rev.geral João Ferreira e Luis Guerreiro Pinto Cacais. - Brasília : Editora Universidade de Brasília, 1998. Vol. 1. p. 954ss.(PDF)

LIPOVETSKY, Gilles, 1944-. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo / Gilles Lipovetsky; tradução Maria Lucia Machado. – São Paulo: Companhia das Letras, 2007. Cap. 5, p. 98ss. (PDF)

RIZZOTTO, Carla Candida. Constituição histórica do poder na mídia no Brasil: o surgimento do quarto poder. Rev. Estud. Comun., Curitiba, v. 13, n. 31, p. 111-120, maio/ago. 2012. (PDF)

ROBOCOP 2014. Direção de José Padilha, produção de Marc Abraham e Eric Newman, Roteiro de Joshua Zetumer. Ação, ficção científica e suspense. Música de Pedro Bromfman. Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer / Columbia Pictures

Imagem: http://www.fandango.com/robocop2014_153658/movietimes.