31 de jul. de 2013


Visitante em Embu-Guaçu

Cidade da região metropolitana de São Paulo, a 42 km da capital, emancipada em 1965, cujo nome significa em tupi “grande rio das cobras”, possui mais de 70 mil habitantes e uma cidade repleta de belos rios.

Na terça-feira, 30 de julho estive nesta cidade que considerei muito bonita com a aparência interiorana mesclada com ruas comerciais de centros periféricos da capital paulista. Lá estive por causa de um amigo especial que necessitava de um motorista e acompanhante em virtude de uma fratura em seu pé esquerdo que o impossibilitava de dirigir por largas horas e iria fechar um negócio no cartório da cidade.

Estacionei na Zona Azul da praça principal, a Ivan Braga de Oliveira onde se localiza o Fórum e o Centro Cultural 28 de Março. O mesmo complexo serve de fundo a um grande palco de eventos que conta com um pequeno e belo posto de informação da Secretaria da Cultura do município. Em frente à entrada lateral do Fórum está o Terminal Rodoviário de Embu-Guaçu, o principal da cidade.

Enquanto esperava meu querido amigo e para não incomodar as pessoas da casa que ele visitava antes de ir ao cartório, dirigi-me ao banheiro do Terminal. As dependências do banheiro masculino estavam horríveis e em péssimo estado de conservação, sem válvulas para a descarga e o chão muito sujo e molhado, uma verdadeira imundície. Havia um senhor que tentava manter o local limpo, mas naquelas condições era impossível.

Se o Terminal é uma concessão da Prefeitura a alguma empresa particular de ônibus, falta uma real fiscalização do local e da empresa, sendo necessária uma intervenção para que a preservação dos ambientes seja efetiva, por outro lado, se é local gerenciado por uma secretaria municipal, é preciso tomar sérias providências naquele lugar que é parte integrante da região central e visitada da cidade.

Qualquer que seja a situação, o local é mantido com recursos públicos e presta um enorme desserviço à população que se utiliza do Terminal e paga em várias instâncias impostos que deveriam ser revertidos para seu conforto. Mesmo que se diga que algumas pessoas é quem depredam e inutilizam o lugar, isso não é verdadeiro da maioria do povo que não faria tal coisa com o bem público.

Muitos problemas de destruição do patrimônio são resolvidos facilmente com a contratação ou criação de uma Guarda Municipal que, alocada diariamente nos pontos principais, como o Terminal, manteria terminantemente seguros e invioláveis os próprios ambientes públicos, além de auxiliar o trabalho da Polícia Militar, atendendo pequenas infrações e delitos.

Como visitante contribui com o comércio local, comprei na feira e contribui até com o município, pagando por duas vezes a Zona Azul, portanto, não me senti bem recepcionado pelas autoridades da cidade enquanto da manutenção da limpeza de um local público e certamente a sua população não se sente em nada bem tratada nesta questão dos banheiros do Terminal Rodoviário.

Prefeito e autoridades municipais de Embu-Guaçu, sei que não é preciso um visitante apontar uma “simples” falha da gestão de uma secretaria. Creio que vocês recebem reclamações diárias do povo e procuram sanar os problemas que chegam aos senhores pelos canais que são disponíveis à sociedade, mas não prestar atenção a um banheiro público dessa dimensão, porque talvez sirva apenas aos mais pobres e os ricos da cidade não lhes dizem nada, por não usarem esse sistema, não é muito inteligente.

Sem desejar criar problemas à vossa gestão, sugiro que investiguem o caso e efetivem soluções para os que usam do Terminal possam expressar o quanto a sua Prefeitura de fato se importa com eles e que, na contrapartida de seus impostos, ela responde com melhorias para todos, inclusive para os que não possuem carros ou para os que não dispõem de muitos recursos.

Carlos Carvalho


24 de jul. de 2013


Indústria das multas no Brasil

Além das câmeras instaladas nas ruas, em semáforos, daquelas que regulam o limite de velocidade em vias que não precisariam ou que são bem acima da regulada, das câmeras escondias atrás de placas nas rodovias ou da Polícia Militar envolvida na aplicação delas, só recentemente percebi a nova "tecnologia" utilizada para nos “pegar” na infração: binóculos.

Alguns veículos da Policia Rodoviária ficam escondidos em certas vias com binóculos para multar aqueles que infringem as leis de trânsito, como por exemplo, trafegar no acostamento e ultrapassar os limites de velocidade. Na região da Rodovia Presidente Dutra, altura do Km 220, é um exemplo disso.

Claro que não estou fazendo apologia às infrações de trânsito, mas muitas vezes com o caos nas estradas e a falta de inteligência dos órgãos competentes para viabilizar o tráfego, isto facilita o outro lado da moeda, o da infração por parte de alguns. Não é certo infringir as leis de trânsito, mas em muitos casos a paciência vai embora e...

Creio que a segurança nas vias públicas é essencial não necessitando alterar nenhuma das leis de trânsito vigentes em nosso país, mas sabemos que de fato há uma indústria das multas que opera indiscriminadamente em muitas das grandes cidades, há sim, e isso com o aval das governanças municipais. Sei o quanto o cumprimento das leis evitaria a maioria dos acidentes e das mortes nas vias, portanto critico somente a indústria das multas.

Carlos Carvalho


16 de jul. de 2013


Quando a Justiça é lenta


“Quando os crimes não são castigados logo, o coração do homem se enche de planos para fazer o mal.” (Nova Versão Internacional)

“Porque a sentença não se executa logo contra uma má obra, por isso o coração dos filhos dos homens é inteiramente disposto a praticar o mal.” (Sociedade Bíblica Britânica)
Eclesiastes 8.11

“Verba docente, exempla trahunt.”
(“Palavras instruem, exemplos arrastam”)
Sêneca, o Jovem

Inicio dizendo que não sou a favor da pena de morte, mas da prisão perpétua ou do cumprimento integral da pena de quem quer que tenha praticado algum crime e que este indivíduo tenha condições de exercer alguma função trabalhista, dada as suas circunstâncias, para que preso, não seja um ser improdutivo, que possa reservar recursos para quando sua pena terminar, ou se não, deixar à sua família algo de valor; que também possa ser educado no regime fechado em todos os níveis: Alfabetização, Fundamental, Médio e Superior).
Quando me deparei com este texto logo vieram à minha mente dois tipos de notícias que são repetidas todas as semanas no Brasil: a larga escala da impunidade de menores (não sou contra o ECA, sou contra sua visão sobre a infância que não é mais real hoje) e a tolerância aos crimes de homicídio e corrupção que desenvolvemos ao longo dos séculos de nossa existência como nação. É desnecessário me utilizar de textos complementares e de referências para isso, bastando apenas a quem se interesse pelo assunto buscar na internet.
Questões mais sérias como a discussão sobre a inimputabilidade do menor ou sua punibilidade independente da idade de imputável pleno, são muito mais sérias e necessárias em nossos dias diante do crescimento da criminalidade do menor aliciado por pessoas que os usam para se livrar das penas. O fato no menor ser corrompido por maior não anula o crime cometido por ele, da mesma forma que não desresponsabiliza o corruptor. E é óbvio que estamos falando dos crimes de homicídio, que apenas 10% do total são cometidos por menores.
Se a inimputabilidade é a inexistência da capacidade de compreensão do ato cometido e de suas consequências, a impunibilidade não deve ser posta fora da equação, pois do contrário, o resultado não é outro, senão o alto grau de aliciamento de menores para o mundo do crime. Por mais difícil que seja aceitar o fato, a inimputabilidade acabou por se tornar uma fuga bem elaborada para os adultos criminosos e, em certos casos, assume uma glamorização do crime na mente do menor.
Paralelamente a esse quadro assistimos dia após dia toda forma impunidade no país, de homicídios confessados e depois de anos absolvidos ou não plenamente julgados como os casos da irmã Dorothy e de PC Farias e de sua namorada, longe de um desfecho final concreto até os crimes contra o patrimônio público e de colarinho branco serem simplesmente desconsiderados em sua gravidade.
Somado a isso, temos a corrupção das polícias, dos funcionários públicos agindo no desvio de grandes somas de dinheiro, nas fraudes contra o sistema previdenciário, das fraudes e ilegalidades que empresas cometem quando da demissão de funcionários, como o não recolhimento do INSS ou o depósito do Fundo de Garantia, além da própria corrupção instaurada nos halls do poder governante do país.
Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador e todas as demais capitais e cidades brasileiras convivem com certo grau “aceitável” de corrupção em seus governos e estamentos sociais. Para se ter uma ideia do tamanho da coisa, o Instituto Ethos veiculou uma pesquisa que o Jornal Valor Econômico publicou, sobre a aceitação dos profissionais das corporações brasileiras de conviverem bem com a falta de ética e com a corrupção. É alarmante o número!
Mas disso tudo nós já sabemos e vemos como uma reprise defeituosa de um processador de filmes ou de áudio continuamente. A questão talvez esteja em outra esfera e não naquelas que estamos acostumados a discorrer. Talvez toda essa tolerância tanto dos poderes, de nosso povo e mesmo do ECA, não sejam demonstrações de uma “evolução social e estrutural” que vivemos como sociedade que amadurece, mas exatamente o contrário. Talvez toda essa tolerância aponte para o fracasso de nossa sociedade e da família em educar e disciplinar os nossos filhos.
É bem possível que todas essas manobras legais, estatutárias, implantações de delegacias especais e leis especiais sejam a corroboração legal de nossa ineficiência como democracia, sociedade, família e povo. E se não tratarmos de fato, seriamente disso, sem desculpas e respostas prontas sociológicas e psicológicas que não servem ao observado na prática, temo que em pouco tempo haja uma implosão de violência por causa dessa impunidade e tolerância a níveis nunca antes vistos no Brasil.
Por onde começar a mudança? Pelo começo. Pela família estruturada, pela aplicação correta e total das penas, pela escola, pela ética, pela moral, por leis mais justas, e se necessário for, por uma revolução real, não “cultural” ou “guerrilheira”, mas uma revolução concreta de valores.

Carlos Carvalho

3 de jul. de 2013

Votação do Projeto de Lei 200/2012


Votação do Projeto de Lei 200/2012

São pouco mais das 19h30m da noite de quarta deste dia 3 de julho e assisto pela TV Câmara a votação deste projeto de lei que segundo os que são favoráveis à sua extinção, é uma cobrança provisória, criada apenas para compensar o desequilíbrio econômico que incidiu sobre o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) provocado por políticas governamentais em anos passados.

Empresários de diversos setores estavam presentes nas galerias da Câmara dos Deputados para pressionar os parlamentares a votarem a favorável ao PL 200/2012, que acaba com a contribuição adicional por parte do empregador de 10% sobre o valor de FGTS, em caso de demissão sem justa causa. A cobrança adicional foi criada em 2001 para compensar as perdas dos correntistas do FGTS com os planos Collor (1999), e Verão (1989).

Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o rombo de R$ 42 milhões teria sido quitado em 2012, sendo que a Caixa Econômica Federal já havia sinalizado em 2010 que essa compensação fora feita. Isto justificaria a extinção da cobrança, mas ela, que foi criada para ser provisória, ainda segue mantida.

De acordo também com a CNI, o custo anual dessa contribuição chega a R$ 3 bilhões, e em agosto do ano passado o Senado aprovou o PL 200/2012, que hoje foi votado na Câmara. Em meio há muitas defesas da bancada do Governo, declarando que essa contribuição é importante para projetos como o Minha Casa, Minha Vida e para coibir as demissões de trabalhadores, essas falas não convenceram os deputados.

Todo empregador paga mensalmente uma alíquota de 8% de FGTS sobre o salário bruto do funcionário. Quando acontece uma demissão sem justa causa, o patrão é obrigado a pagar uma multa de 50% sobre o valor total que ele pagou de FGTS por esse funcionário durante o tempo de contrato. Desse valor, 40% vão para o funcionário demitido e 10% ao Governo.

A votação terminou com 315 votos pela extinção, 95 por mantê-la e uma abstenção. Segue agora para sanção presidencial. Sabemos que o Governo deseja a manutenção dessa cobrança e a Presidente é favorável à mesma, mas esperamos que o desejo da maioria não seja desrespeitado neste momento.

Esse anseio, que não é apenas de empregadores, mas da própria sociedade, que já está farta de bancar a corrupção e os desmandos com o dinheiro público, foi revelado nesta votação representativa do próprio povo, enquanto representado nos votos de seus parlamentares. Desejamos que a Presidente assine com a maioria, pois isto é Democracia.


Carlos Carvalho

As Teorias sobre o Homem e suas consequências

As Teorias sobre o Homem e suas consequências

Se apresentarmos o homem com um conceito do homem que não é verdadeiro, poderemos corrompê-lo. Quando o apresentamos como uma automação de reflexos, como uma máquina mental, como um feixe de instintos, como um joguete de impulsos e reações, como mero produto da hereditariedade e do ambiente, fomentamos o niilismo (a descrença em todos os valores sociais estabelecidos) ao qual o homem moderno que qualquer forma é propenso.

Conheci bem o último estágio da corrupção em meu segundo campo de concentração, Auschwitz. As câmaras de gás de Auschwitz foram a última consequência da teoria de que o homem nada é, senão produto da hereditariedade e do ambiente – ou como os nazistas gostavam de dizer, “de sangue e pó”.

Estou absolutamente convencido de que as câmaras de gás de Auschwitz, Treblinka e Maidanek em última análise foram preparadas não por um ou outro ministério de Berlim, mas, antes, nas escrivaninhas e nas leituras dos cientistas e filósofos niilistas.

Victor Frankl (1905-1997)

“O médico e a alma: Introdução à Logoterapia”.


Médico Psiquiatra austríaco, Escritor e Doutor em Filosofia, Professor de Neurologia e fundador da Logoterapia.

26 de jun. de 2013

Sofrimento Burocrático
A via crucis para retirar um veículo do pátio da CIRETRAN

Manhã de segunda-feira, dia 24 de junho. Dobro a esquina da rua onde moro para levar minha filha menor ao trabalho como de costume. Após alguns metros de trânsito infernal, desvio de um ônibus para que ele não colidisse com meu carro. De frente a este fato, vem na outra mão, uma viatura policial e pede para que encoste, pois eu “estava dirigindo na contramão”.

Após a averiguação dos meus documentos, um dos policiais me informa que meu veículo deverá ser guinchado ao pátio, pois não consta em seu sistema o pagamento do licenciamento do ano. De fato, por causa da problemática da Controlar e da Prefeitura de São Paulo no início do ano acerca da taxa da inspeção veicular, eu não me ative ao retorno do pagamento e perdi a data da inspeção, gerando o não recebimento do documento e a falta do registro no sistema, mesmo que eu já havia pago os IPVA’s e todas as demais taxas, mas sem o Controlar, nada feito.

Mostrei os documentos de pagamento, mas fui infeliz porque o policial não sabia se eu tinha pagado ou não os valores. Seu companheiro chamou o guincho e retirei todos os pertences do veículo e aguardei o resultado. A forma como um dos policiais me abordou e “conversou” comigo foi impressionante. Com o baixo nível de formação que eles têm (claro, não todos), muitos desses policiais não sabem a diferença entre uma infração de trânsito e um delito. Para muitos deles as duas coisas são iguais.

Carro levado retorno a pé para minha casa (ainda bem que estava a alguns metros apenas) e esperei uma melhor hora para resolver o problema que tinha nas mãos. Dirijo-me ao Poupa Tempo de Guarulhos, no bairro Macedo. Ali inicia-se a jornada. Primeiro é necessário passar pelo balcão “Licenciamento” e lá receber as informações dos débitos e dos passos necessários para a retirada do veículo. De cara, a moça que me atende não pode realizar o meu pagamento, pois não recebe em dinheiro e no débito tem um limite para o valor a pagar.

Ela não sabe me informar o que fazer e tem a ideia de me dizer que eu, como algumas pessoas, pagasse em partes, uma aqui e outra ali. Saio e vou ao banco que tenho conta (que não é o que há lá no Poupa Tempo) e faço os pagamentos via caixa eletrônico. Retorno para a mesma fila e a mesma moça confere os documentos e me envia para o lado no mesmo balcão onde há uma placa que informa: “Triagem...”. Conferido novamente os documentos e as cópias exigidas está tudo certo e recebo uma senha para uma das mesas de atendimento que fica a alguns metros do balcão.

Rapidamente sou chamado e mais uma vez outra pessoa confere os documentos e percebe que há uma via bancária que foi emitida no caixa eletrônico e ela me diz que precisa de uma cópia dela. Argumentei-lhe que a pessoa anterior viu os mesmos papéis e não me disse nada, mas que ela poderia ficar com a via, pois era uma cópia que foi gerada pelo próprio caixa, mas me disse que eu teria que tirar uma cópia. Ela não estava aceitando que a via do pagamento das taxas não estivesse em uma folha de sulfite em cópia.

Após isso me disse que pelo fato de eu não apresentar o documento de compra e venda do veículo (não o encontrei de forma alguma, não sei se foi o nervosismo ou a raiva), eu deveria ir ao cartório e reconhecer firma de minha assinatura em um papel que me deu declarando que havia perdido o CRV. Dirigi-me ao cartório onde tenho firma aberta no mesmo instante para não perder tempo e não ter que retornar a minha casa e procurar mais detidamente o documento, pois queria tentar retirar o carro no mesmo dia.

No 1º- Cartório de Notas entrei na fila, e na minha vez, uma moça me perguntou se o reconhecimento da firma era com autenticação ou comum, pois os documentos para o DETRAN geralmente eram com reconhecimento por autenticação. Para não ter problemas fui à fila da autenticação. Mas me ocorreu um pensamento: se o cartório reconhece sua assinatura em um documento porque ele tem seus dados e sua assinatura escaneada em seu sistema, como um reconhecimento pode ser mais autenticado que este? Olhei os valores e entendi. Firma reconhecida: R$ 4,50. Por Autenticação: R$ 11,50. São R$ 7,00 a mais.

Na fila da autenticação há uma placa que informa: “Reconhecimento de Firma por Autenticação (para transferência de veículo)”. Minha reação foi perguntar à moça que lá estava que o meu documento era simples e não estava tentando transferir o carro, mas retirá-lo do pátio. Resposta? A mesma da moça anterior: “Geralmente para o DETRAN, os documentos vão com assinatura por autenticação”. Parecia uma daquelas programações de vozes das empresas telefônicas.

Paguei os R$ 11,50, mas descobri o que é a autenticação: você assina num livro e põe nele seu RG. Tudo isso por apenas R$ 7,00 a mais. Retorno andando o mais rápido que posso para o Poupa Tempo e de posse total do solicitado passo pelos dois balcões de novo para pegar mais uma senha. Na mesa da mesma senhorita, pensando que poderia retirar o veículo no mesmo dia, para a minha surpresa, não poderia mesmo que quisesse, pois segundo ela os documentos precisariam chegar antes das onze da manhã para que o ofício que só sai após às quatorze horas fosse liberado para mim.

Meu carro era obrigado a ficar no pátio até o outro dia. Na terça-feira, dia 25, vou ao Poupa Tempo às nove horas e entrego os documentos de novo, mas não sem antes passar pelos dois balcões para pegar a senha. Conferido todos os papéis, a senhorita me informa o horário da retirada e me lembra que preciso levar também, além das cópias exigidas, o depósito bancário dos valores do pátio. Ligo para o local onde está meu veículo que fica a menos de 1.200 metros de minha casa em uma rua paralela. Falo com uma moça e ela me informa os valores.

São R$ 285,00 pelo guincho e R$ 90,00 pelos dois dias do pátio. Estranhei os valores e lhe perguntei o porquê disso. Meu carro não estava lá nem por 24 horas e o guincho só teve o trabalho de descer a ladeira e fazer uma curva à direita. Informou-me que esta era o valor do guincho e que o pátio conta “dias corridos”. Definição de “dias corridos”? Data. Mesmo se um veículo chagar ao pátio 10 minutos para a meia-noite, ele terá ficado no pátio por dois “dias corridos”. Até as definições mudam. Mas não parou por aí.

Os valores deveriam ser depositados na “boca do caixa”, pois não seria aceito depósito eletrônico e nem transferências. Disse-lhe que por transferência seria ideal para que não pegasse fila em banco, mas contra-argumentou dizendo que não possuía acesso à conta e não poderia averiguar a transferência. Ela ao que parece não sabia que, para um banco emitir uma guia de transferência, o dinheiro de fato saiu de sua conta e está imediatamente na conta do destinatário. Fui à fila do banco.

Perto das 14 horas, me dirigi ao setor da retirada do ofício e me deram o papel. Nele havia a declaração que só poderia ser retirado por guincho depois de apresentar todas as exigências para tanto. Assinado pelo diretor do 146º- CIRETRAN de Guarulhos, um documento que declara que preciso apresentar novamente os mesmos documentos que já havia apresentado e deixado cópia de todos para o processo de liberação e o pior, com uma ressalva final dizendo que todos os “documentos em anexo eram de minha total responsabilidade”. Além dos erros de português no ofício, tive que aceitar isso assim mesmo.

Vou para o pátio, contrato um guincho particular, entrego os documentos, faço perguntas técnicas e não me dão respostas satisfatórias, como por exemplo: “Se devo levar o veículo ao Controlar (que paguei ao invés de uma, duas taxas, uma para a Prefeitura de Sã Paulo e outra para a Controlar), como farei se não me deram o documento de licenciamento ou uma autorização para me locomover apenas para esse fim na data marcada?” “Leve no guincho ou se arrisque”, foi a resposta. E ainda: “Hoje está chovendo e os caras não estão na rua, então...”. Pus meu carro no guincho.

Para levar meu veículo até a minha casa do pátio que ficava a menos de 1.200 metros (a mesma distância que foi levado para lá), o guincho particular custou R$ 90,00. Quase R$ 200,00 a menos que o terceirizado da CIRETRAN de Guarulhos. 31 horas depois que meu carro foi guinchado e por possuir no dia os recursos para realizar o feito, levei-o até minha residência. Um misto de frustração e raiva ainda estava em mim ao final do dia.

Sempre reclamei que nosso sistema é burro e a burocracia uma afronta ao brasileiro, mas descobri a verdade que acho que alguns já haviam descoberto: nosso sistema burocrático não é burro, é esperto, é inteligente. É uma eficiente máquina altamente lucrativa para os cofres públicos. Por isso não há movimentos para mudar esse sistema. É rentável. Cada taxa, cada cópia, cada imposto, cada valor relacionado os papéis municipais, estaduais e federais são fontes de extrema riqueza extraída do povo.

Policias militares sem formação, mal treinados, que não sabem fazer distinção entre crime e infração, burocracia exagerada e sem conexão com outros setores, sistema criado para exaurir nosso dinheiro além do que já fazem as multinacionais, incentivos fiscais às indústrias automotivas justamente para criar esse ser monstruoso sugador de impostos sobre os veículos, um caos conscientemente criado para atravancar a vida das pessoas enquanto o sistema e os políticos corruptos “queimam” nossos dinheiro a seu bel prazer, este é um sistema eficaz para o poder.

Encerro dizendo que não estava em meus plenos direitos por não possuir a devida documentação do veículo e não estou me justificando por ter sido flagrado em uma situação que poderia ter sido evitada talvez por mais atenção. Mas da mesma forma os fatos não se alteram acerca do sistema e da burocracia. Com flagrante ou apenas para regularizar o seu carro, você encontrará semelhantes taxas e semelhante atendimento. Em uma situação de trânsito ou não, a polícia ainda continua na mesma inadequação. Como sempre diz o meu sogro, Tino: “O sistema é bruto, cabra véi!”

Carlos Carvalho

Junho de 2013

13 de jun. de 2013


A Ideologia no Livro Didático

     Se a ideologia serve como instrumento de dominação e as idéias dos dominantes passam a ser as idéias de todas as classes sociais por causa do próprio processo ideológico, não seria de estranhar que na educação das massas, o livro didático fosse recheado de uma ideologia que não apenas discrimina o trabalho manual e valoriza o trabalho intelectual, mas também, esse espaço (o livro didático) discriminará todas as coisas e representações que não se ajustam ao pensamento construtor de sua ideologia.
    Li um pequeno fragmento do livro "Ideologia no livro didático", de Ana Lúcia G. de Faria e algumas frases saltam à atenção nele e descrevo-as para nossa consideração. Por exemplo, “para o livro didático o trabalho intelectual é mais moderno” (p.66), “a divisão do trabalho no livro didático é uma questão de forma” (p.66), e “existe uma relação entre campo e cidade para o livro didático” (p.68). Esta última é sempre uma relação diferenciada no aspecto que no campo o trabalho é menos valorizado e atrasado, ao passo que na cidade o trabalho é melhor e mais “profissional”.
    Se pensarmos na maneira como a população de um modo geral em nossos dias vê e define o trabalho do campo e o da cidade, podemos perceber o quanto a influência desta ideologia foi eficiente ao longo dos anos. Qualquer estudante em curso de formação básica e fundamental que tenha acesso ao livro didático que aborda o assunto, fatalmente terá uma idéia no mínimo distorcida do trabalho produtivo que é realizado em ambos os ambientes.
    A lógica do capital tanto corporativo como especulativo necessita desta ideologia para criar não somente suas raízes na sociedade em que foi implantado, como para reproduzir seu próprio sistema de dominação sobre a maioria que controla. O controle é a chave para a dominação e a dominação se dá pela ideologia, assim o ciclo vicioso do domínio/capital/ideologia sobre o dominado/subalterno/atrasado se perpetua.
    Certamente nada mais efetivo para um sistema ideológico de dominação que atuar nas bases da sociedade que procura controlar. Portanto, o instrumento mais seguro de consolidar seu domínio é exatamente no início da formação do indivíduo, na escola. Lá todos são iniciados no pensamento coletivo, por lá todos compulsoriamente passam, e é então por lá, a melhor e mais incisiva investida para manter a ideologia da dominação.
    Se o trabalho no campo não é o desejado pela maioria das pessoas que agora habitam ou migraram para as cidades e metrópoles em busca de uma “vida melhor”, é óbvio que a profissionalização, a educação voltada para as demandas do sistema de capital, a ênfase e propaganda da temática do trabalho “superior” será a coisa principal no interior do sistema educacional.
    O livro didático, neste caso, cumprirá seu papel “natural” no sistema, pois não poderá enfatizar ou enaltecer um tipo de trabalho que não serve ao modelo de capitalismo dominante nessa sociedade específica. Mas ainda poderíamos estender a discussão para outro âmbito educacional, o nível superior. Uma pergunta também pode ser feita: a faculdade ou a universidade não estão reproduzindo o mesmo sistema ou pensamento ideológico?
    Quando se faz propaganda que a maioria dos alunos que cursam esta ou aquela universidade já saem de lá com emprego garantido ou com alto índice de sucesso corporativo ou profissional não se perpetua o domínio do sistema do capitalismo que gera por sua vez toda a problemática discutida? O livro didático é o fator determinante da discriminação da divisão do trabalho e da manipulação da informação sobre o problema ou é apenas o subproduto ou a reprodução do próprio sistema que vivemos?
    Com a palavra os especialistas.


Referência:

Ideologia no livro didático, de Ana Lúcia G. de Faria, Editora Cortez.